Carlos Moacyr Gomes de Almeida, um dos empresários que originaram a Gafisa S.A., faleceu na última sexta-feira, 30 de maio de 2026, no Rio de Janeiro; a família não divulgou a causa da morte. O desaparecimento do executivo encerra uma carreira iniciada em 1954, quando ele cofundou a Gomes de Almeida, Fernandes Imobiliária, empreendimento que, após sucessivas expansões, resultou em uma das incorporadoras mais conhecidas do mercado de capitais brasileiro.
Pioneirismo e fundação da primeira sociedade (1954-1970)
O ingresso de Almeida no setor imobiliário ocorreu em 1954, ao lado de Luiz Cyrillo Fernandes, com a criação da Gomes de Almeida, Fernandes Imobiliária no Rio de Janeiro. Poucos anos depois, o empresário Jayme de Moraes Aranha juntou-se ao quadro societário, ampliando a capacidade de prospecção de terrenos e financiamento de projetos residenciais. Entre meados da década de 1950 e o fim dos anos 1960, o trio entregou dezenas de edifícios na então capital federal, período marcado pela migração urbana intensa e por políticas de crédito habitacional fomentadas pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), instituído em 1964.
Em 1971, Almeida integrou o grupo de 15 fundadores da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi-RJ). A entidade passou a representar construtoras e incorporadoras junto aos órgãos públicos estaduais, padronizando métricas de custo por metro quadrado e diretrizes de financiamento. Esse movimento institucional fortaleceu a credibilidade do setor e projetou o empresário como voz ativa em temas como zoneamento urbano e índices de correção monetária aplicados a contratos de compra e venda.
Fase de diversificação e expansão societária (1971-1996)
Durante as décadas de 1970 e 1980, o grupo liderado por Almeida diversificou o portfólio. Além da incorporação imobiliária, passaram a compor o conglomerado atividades em usinas de açúcar, fazendas e sociedades de propósito específico para loteamentos industriais. O redirecionamento refletiu o ambiente macroeconômico da época, quando empresas buscavam proteção contra inflação elevada por meio de ativos reais.
Nos anos 1990, já em processo de profissionalização da gestão, a companhia implementou governança corporativa básica: escrituração de demonstrações financeiras em padrão brasileiro (Lei 6.404/76) e auditoria externa independente. Esse modelo facilitou, em 1997, a entrada de capital de risco estrangeiro, passo considerado decisivo para a preparação rumo ao mercado de capitais.
Aliança com a GP Investimentos e mudança para a marca Gafisa (1997-2007)
O ponto de inflexão ocorreu em 1997, quando os fundadores firmaram associação com a GP Investimentos. Na operação, Almeida e seus sócios transferiram a marca original e parte do banco de terrenos, enquanto o fundo aportou recursos destinados à expansão nacional e à adequação a padrões internacionais de governança. Como parte da reestruturação, a empresa adotou a sigla Gafisa, derivada de Gomes de Almeida Fernandes Imobiliária S.A., política que desvinculou o negócio dos sobrenomes originais e reforçou o posicionamento corporativo.
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Entre 1997 e 2007, a nova configuração societária permitiu elevar o volume de lançamentos. Dados internos indicam crescimento médio composto (CAGR) de 28 % ao ano no Valor Geral de Vendas (VGV) durante o período. A culminância veio em 2007, quando a companhia realizou ofertas públicas de ações simultâneas na B3 e na Bolsa de Nova York (NYSE), feito inédito entre incorporadoras brasileiras à época. O capital captado financiou a expansão para praças como São Paulo, Curitiba, Recife e Brasília, além da consolidação de mais de 1 000 empreendimentos entregues ao longo da história.
Desafios atuais e legado empresarial (2008-2026)
Após o ciclo de crescimento impulsionado pelo boom imobiliário de 2009-2013, a Gafisa enfrenta, desde 2015, desafios operacionais e financeiros. Pressões de margem, elevação de estoques prontos e maior custo de capital resultaram em processos de desinvestimento e aumento de capital. Em 28 de maio de 2026, por exemplo, a companhia encerrou uma oferta que deixou 95 % das ações sem demanda, evidenciando o ceticismo do mercado em relação ao plano de reestruturação.
Ainda assim, o setor reconhece que a influência de Almeida extrapola o desempenho recente da empresa. O Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio) destacou, em nota, o “espírito empreendedor” do executivo, enquanto a Ademi-RJ frisou o “fortalecimento da atividade imobiliária” decorrente de suas iniciativas. Profissionais consultados associam a adoção de práticas de governança, a abertura de capital e a disseminação do modelo de Sociedade de Propósito Específico (SPE) na incorporação a diretrizes defendidas pelo fundador desde a década de 1990.
Conclusão técnica
O falecimento de Carlos Moacyr Gomes de Almeida ocorre em momento de reorganização estratégica da Gafisa, que busca reduzir alavancagem, otimizar portfólio de terrenos e retomar rentabilidade. Embora o cenário operacional atual envolva desafios relevantes, a estrutura corporativa e as inovações introduzidas pelo fundador permanecem pilares para eventuais ciclos de recuperação. Nos próximos trimestres, analistas acompanharão indicadores como endividamento líquido, velocidade de vendas (VSO) e margens bruta e líquida para mensurar a eficácia das medidas em curso. O legado de Almeida, consolidado em mais de sete décadas de atuação, seguirá como referencial histórico para executivos e formuladores de políticas no mercado imobiliário brasileiro.




