Um estudante da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) denunciou à Polícia Civil ter sido vítima de extorsão e cárcere privado por um motorista parceiro do aplicativo 99 na madrugada de 25 de maio, em Florianópolis. O caso ocorreu por volta das 4h30 e antecede, em poucos dias, outro episódio que terminou com o atropelamento da moradora Mia Sophie da Silva Bestar após discussão sobre pagamento de corrida.
Sequência da tentativa de extorsão: trajeto, bloqueio e exigência de pagamento via Pix
Segundo o boletim de ocorrência, o passageiro Taz Assunção, 23 anos, solicitou uma viagem com destino ao Aeroporto Internacional de Florianópolis. Ele havia cadastrado cartão de crédito, mas percebeu que o app registrou a modalidade “dinheiro”. Ao comunicar o equívoco, o condutor alterou o roteiro, trancou as portas e conduziu o veículo até um posto de combustíveis na SC-401.
No local, o motorista teria imposto duas alternativas: transferência imediata por Pix para conta pessoal ou abastecimento do tanque como quitação. A recusa em aguardar a compensação automática do aplicativo configurou, de acordo com a vítima, constrangimento ilegal e retenção contra a vontade.
Sem endereço exato, a ligação ao 190 não resultou em despacho de viatura. A situação começou a se reverter quando a vítima acionou um amigo em viva-voz; percebendo a chamada monitorada, o motorista dirigiu de volta ao aeroporto. O estudante perdeu o voo para Brasília, onde participaria de evento de Economia Popular e Solidária.
Providências policiais e posicionamento da 99
O estudante registrou Boletim de Ocorrência na 6ª Delegacia de Polícia da Capital e protocolou denúncia no suporte do aplicativo. Em nota enviada à reportagem, a 99 informou que suspendeu preventivamente o motorista e iniciou processo interno de verificação, que pode resultar em descredenciamento definitivo. A plataforma acrescentou que se coloca à disposição das autoridades e oferece suporte com registro de dados de corrida, telemetria e GPS.
Fontes da Polícia Civil confirmaram a abertura de inquérito por extorsão e cárcere privado, tipificados nos artigos 158 e 148 do Código Penal. Imagens de câmeras de segurança do posto de combustíveis foram solicitadas, e a operadora telefônica deverá fornecer logs para confirmar a rota realizada entre 4h29 e 5h07.
A Secretaria de Estado da Segurança Pública informou, em nota, que 16 ocorrências relacionadas a motoristas de aplicativos foram registradas em Santa Catarina no primeiro semestre, das quais 5 envolvem suspeita de ameaça ou extorsão.
Atropelamento relacionado ao mesmo aplicativo e contexto de recorrência
Menos de uma semana após o caso de Taz Assunção, a bióloga Mia Sophie da Silva Bestar, 28 anos, relatou ter sido atropelada por motorista cadastrado na plataforma 99. O conflito também girou em torno do método de pagamento; com o celular descarregado, a passageira ofereceu cédula de R$ 100, recusada pelo condutor, que, segundo a vítima, aparentava estar sob efeito de entorpecentes.
Imagem: NDTV
Testemunhas registraram imagens que mostram o veículo avançando contra a mulher na avenida Pequeno Príncipe, no bairro Campeche. O motorista fugiu sem prestar socorro e é alvo de mandado de condução coercitiva. A 9ª Delegacia investiga lesão corporal dolosa e tentativa de homicídio.
Entidades que representam condutores, como a Associação de Motoristas por Aplicativo de SC, alegam que a pressão financeira sobre os parceiros, somada à falta de mediação imediata entre passageiro e plataforma, amplia o risco de confrontos em corridas noturnas. Já o Procon-SC notificou três empresas do setor para apresentar políticas de segurança e canais emergenciais de suporte em até 10 dias.
Panorama regulatório e indicadores de segurança no transporte por aplicativos
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, em 2023, foram registradas 1 827 ocorrências envolvendo plataformas de mobilidade em todo o país, crescimento de 18 % em relação ao ano anterior. Entre as modalidades, extorsão respondeu por 6 % dos registros, enquanto agressões físicas somaram 22 %.
Em Florianópolis, o projeto de lei complementar PLC 1/2024 aguarda votação na Câmara Municipal e pretende instituir obrigatoriedade de botão de pânico integrado ao aplicativo, além de verificação anual de antecedentes criminais dos condutores. O setor empresarial argumenta que a medida eleva custos operacionais, mas a bancada de segurança pública sustenta que a iniciativa é fundamental para coibir casos semelhantes aos relatados.
Especialistas em mobilidade urbana afirmam que a ausência de fiscalização em tempo real cria lacunas exploradas por motoristas mal-intencionados. A recomendação geral inclui verificação do nome do condutor, placa do veículo e forma de pagamento antes do embarque, bem como preferência por locais iluminados para início e término da viagem.
Conclusão Técnica
As investigações sobre a tentativa de extorsão contra Taz Assunção e o atropelamento de Mia Sophie da Silva Bestar avançam paralelamente na Polícia Civil, com expectativa de conclusão dos inquéritos em 30 dias. A 99 mantém o motorista denunciado afastado até o encerramento das apurações e discute aprimoramentos na triagem de condutores. No âmbito legislativo, projetos que exigem dispositivos de segurança adicionais seguem na pauta municipal e estadual. Empresas, órgãos reguladores e usuários observam o desfecho dos casos como potencial catalisador para novas normas de proteção e monitoramento em aplicativos de transporte coletivo individual.




