O ministro André Mendonça determinou a retirada do sigilo aplicado aos arquivos armazenados no iCloud de Luiz Philippi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado pela Polícia Federal como braço violento do grupo liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. A medida, anunciada na sessão da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal que manteve a prisão preventiva de parentes do banqueiro, abre caminho para novas diligências em uma investigação que já expôs supostas fraudes ao sistema financeiro, ameaças a testemunhas e tentativa de obstrução da Justiça.
Cronologia da decisão e extensão do inquérito
• Fevereiro de 2024: a Operação Compliance Zero entra em sua terceira fase e prende Luiz Philippi Mourão, suspeito de chefiar uma milícia privada a serviço do Banco Master.
• 28 de fevereiro de 2024: Mourão morre na carceragem da PF em Belo Horizonte.
• Março a abril de 2024: peritos extraem dados do iCloud do aparelho do investigado; o material fica sob sigilo por decisão de André Mendonça.
• Semana de 22 de maio de 2024: o ministro revoga o sigilo e coloca o conteúdo à disposição da PF e do Ministério Público Federal.
• 28 de maio de 2024: a 2ª Turma do STF mantém a prisão preventiva de Henrique Vorcaro (pai) e Felipe Vorcaro (primo), citando “indícios robustos de tentativa de intimidação de testemunhas”.
Principais elementos revelados até o momento
1. Mensagens de chantagem financeira: diálogos atribuídos a Joana Mourão, irmã do Sicário, indicam exigência de R$ 100 mil ao patriarca da família Vorcaro para manter sigilo sobre informações sensíveis.
2. Indicativos de milícia armada: trocas de mensagens com o operador do jogo do bicho Manoel Mendes Rodrigues descrevem tentativa de recrutar seguranças fortemente armados para proteção de bens e supressão de desafetos.
3. Pistas de obstrução de Justiça: conversas sugerem elaboração de contratos fictícios para justificar transferências bancárias, possivelmente destinadas a influenciar depoimentos de colaboradores.
4. Conexão com fraudes financeiras: relatórios já anexados à ação relatam uso de contas de passagem e empresas de fachada para mascarar origem de recursos desviados do sistema financeiro nacional.
Defesas e posicionamentos formais
Advogados de Henrique Vorcaro qualificam as transferências discutidas como “comissões imobiliárias contratadas desde 2021”, negando qualquer vínculo com coerção de testemunhas.
A defesa de Manoel Mendes Rodrigues sustenta que o cliente apenas prestava serviços de vigilância em propriedade rural da família Vorcaro, atividade considerada lícita.
O Ministério Público Federal, entretanto, argumenta que a soma de mensagens, extratos bancários e depoimentos confirma tentativa estruturada de obstruir o trabalho investigativo. Conforme despacho de Mendonça, a manutenção das prisões busca “garantir a ordem pública, a instrução criminal e a aplicação da lei penal”.
Repercussões dentro do Supremo Tribunal Federal
O placar na 2ª Turma registrou três votos a favor da continuidade da prisão e dois contrários. Acompanharam o relator os ministros Luiz Fux e Nunes Marques. O ministro Gilmar Mendes divergiu, sugerindo prisão domiciliar ao patriarca, e comparou a condução do caso a métodos da Operação Lava Jato.
Apesar da dissidência, o relator reiterou que “o próprio material apreendido indica intimidações de pessoas” e que novas descobertas poderão ampliar o leque de denunciados.
Imagem: Andressa Anholete
Detalhes técnicos da quebra de sigilo digital
A retirada do sigilo envolve conjunto de 5 TB de dados sincronizados no iCloud do Sicário, incluindo:
• 2,1 TB em registros de conversas via iMessage e WhatsApp;
• 1,4 TB em fotos e vídeos georreferenciados;
• 800 GB em documentos PDF e planilhas financeiras;
• 700 GB em backups de aplicativos bancários e registros de tokens de autenticação.
Peritos da PF utilizam ferramentas de varredura forense para identificar hashes duplicados, reconstruir conversas criptografadas e cruzar metadados com movimentações bancárias já mapeadas pelo Coaf.
Mapeamento de possíveis desdobramentos
Especialistas consultados pelas autoridades apontam quatro frentes de investigação a partir do novo acervo:
1. Ligações internacionais – verificação de eventuais contas em paraísos fiscais ligadas ao grupo.
2. Lavagem de capitais por criptoativos – rastreio de endereços de blockchain mencionados em anotações nos dispositivos.
3. Extensão da rede de milícia privada – identificação de fornecedores de armamentos e segurança patrimonial.
4. Fraudes em operações de câmbio – correspondência entre planilhas apreendidas e operações de dólar-cabo.
Conclusão Técnica
A liberação dos dados de nuvem do Sicário marca a fase mais sensível do Caso Banco Master. Com a manutenção das prisões de Henrique e Felipe Vorcaro, o STF sinaliza prioridade na preservação das provas digitais e na prevenção de interferências externas. Nas próximas semanas, a Polícia Federal deverá concluir a perícia integral do iCloud, cujo conteúdo pode gerar novas ordens de prisão e denúncias por lavagem de dinheiro, organização criminosa e ameaça a testemunhas. O andamento processual seguirá monitorado pela 2ª Turma, que poderá reavaliar medidas cautelares caso surjam elementos que justifiquem ampliação ou revisão das restrições impostas.




