O Banco ABC Brasil (ABCB4) registrou retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 13,5% no primeiro trimestre de 2026, abaixo do patamar histórico de 15%-16%, e reforçou a estratégia defensiva nas concessões de crédito diante de juros persistentemente elevados e maior incerteza geopolítica.
Contexto macroeconômico pressiona rentabilidade
A virada de 2025 para 2026 trouxe um ambiente internacional mais volátil, influenciado pelo conflito no Oriente Médio, e alterou as projeções para a trajetória da taxa Selic no Brasil. O ciclo de cortes, antes dado como certo, foi reprecificado para um ritmo mais lento e incerto, estendendo o período de custo do capital elevado. Esse cenário impactou diretamente o fluxo de caixa das empresas clientes e aumentou o risco de inadimplência, fatores que pesam sobre as margens de bancos corporativos.
No caso do ABC Brasil, a combinação de menos dias úteis – característica sazonal do primeiro trimestre – com o choque de expectativas dos mercados globais resultou em maior prudência na originação de crédito. Segundo o diretor de Relações com Investidores, Estratégia & Business Development, Ricardo Moura, “o principal risco sempre foi e continua sendo o risco de crédito”, reforçando a necessidade de “manter a guarda alta”.
Números do 1T26: lucro em alta anual, mas recuo trimestral
Apesar do panorama desafiador, o ABC Brasil entregou lucro líquido recorrente de R$ 230,2 milhões, avanço de 2,1% em doze meses. Na comparação com o último trimestre de 2025, contudo, houve retração de 16,4%, reflexo da pressão sobre receitas e provisões.
O indicador de inadimplência manteve-se controlado, mas a despesa com provisões subiu de 0,5% da carteira no 1T25 para 0,8% no período atual, sinalizando maior exigência de cobertura a perdas potenciais. Houve, entretanto, leve alívio em relação ao 4T25, quando o índice estava em 0,9%.
A carteira de crédito total cresceu 6,3% em doze meses, em linha com o guidance de avanço entre 6% e 10% para 2026. O segmento Middle Market foi destaque, com expansão superior a 24%, estratégia que promove diversificação, mas exige monitoramento redobrado por tratar-se de empresas mais sensíveis a ciclos de juros longos.
Postura defensiva orienta concessões e diversificação de receitas
Para mitigar eventuais deteriorações da qualidade de ativos, o banco intensificou a exigência de colateralização elevada, garantias robustas e estruturas mais seguras nas novas operações. Moura sublinhou que qualquer aumento de participação no Middle Market “é sempre gradual” e condicionado à geração de caixa dos tomadores.
A política conservadora também se reflete na busca por novos vetores de receita. Em ambientes de volatilidade, produtos como derivativos tendem a ganhar espaço no portfólio, enquanto modalidades como consórcios aparecem como alternativa para clientes que evitam endividamento tradicional em tempos de juros altos. A diversificação não pretende substituir o crédito corporativo, mas criar colchões adicionais para sustentar a rentabilidade.
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Além das frentes de receita, o banco mantém iniciativas de ganhos de eficiência operacional, com digitalização de processos e adoção de ferramentas analíticas que auxiliam na precificação de risco, elementos apontados pela gestão como estruturais para sustentar o retorno de capital no médio prazo.
Perspectivas para o restante de 2026
A administração prevê que o ROE retorne ao patamar considerado sustentável pelo banco conforme três fatores principais se materializem:
- Retomada da atividade econômica após o ritmo mais lento do primeiro trimestre;
- Redução gradual da Selic, ainda que em um cronograma mais estendido;
- Normalização das receitas de banco de investimento, historicamente mais fortes a partir do segundo semestre.
Esses vetores, combinados aos efeitos cumulativos de eficiência e diversificação, são esperados para recompor margens e ampliar o lucro por ação, desde que não ocorram choques adicionais no ambiente macro.
Conclusão técnica
O Banco ABC Brasil encerrou o 1T26 com ROE de 13,5% e lucro recorrente de R$ 230,2 milhões, números que, apesar de sólidos, refletem pressões de provisões e do cenário de juros altos mais duradouros. A instituição sustenta que o resultado representa um ponto de partida para recuperação ao longo do ano, apoiada em rigor creditício, garantias reforçadas e expansão seletiva da base de clientes. A estratégia contempla ainda diversificação de linhas de receita e esforços de eficiência operacional. A efetividade desse plano dependerá da intensidade da desaceleração global, da trajetória da Selic e da evolução dos indicadores de inadimplência, fatores que permanecem no radar de analistas e investidores para os próximos trimestres.




