Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa aceleraram a liberação de crédito consignado para empregados com carteira assinada no primeiro trimestre de 2026, elevando a carteira do segmento para R$ 100 bilhões – salto de 142 % em relação a março do ano anterior, segundo o Banco Central. O movimento responde à necessidade de reduzir inadimplência, preservar margens num cenário de Selic elevada e aproveitar as garantias de desconto em folha e do FGTS, consideradas mecanismos de risco controlado.
Expansão acelerada supera marca histórica e redireciona apetite por crédito
O consignado privado tornou-se a alternativa prioritária para crédito a pessoas físicas em meio à retração das linhas sem garantia, como rotativo do cartão e empréstimo pessoal. Ao atingir R$ 100 bilhões, a modalidade passou a representar pouco mais de um quarto dos R$ 384 bilhões alocados no consignado de servidores, indicando espaço relevante para crescimento. O Brasil conta com aproximadamente três vezes mais trabalhadores sob o regime CLT do que funcionários públicos, o que amplia o mercado endereçável.
O forte ritmo de concessão aconteceu mesmo com pendências operacionais no sistema da DataPrev, responsável por processar as averbações. Instituições financeiras optaram por antecipar originação para fortalecer a qualidade de seus balanços, em especial após elevações sucessivas das provisões para devedores duvidosos observadas em 2025.
Estrategistas dos grandes bancos ajustam portfólios para capturar margem sem elevar risco
No setor privado, o Itaú Unibanco sustenta a liderança, aumentando a carteira de R$ 12 bilhões para R$ 19,5 bilhões após o lançamento do Programa Crédito do Trabalhador. A participação de mercado da instituição supera 20 %, resultado de políticas seletivas que priorizam empresas com folha volumosa e histórico de estabilidade empregatícia.
O Bradesco ampliou o saldo em quase 43 %, alcançando R$ 6,7 bilhões, embora o segmento represente apenas 6 % do portfólio total de consignados do banco. A estratégia contempla integração crescente com plataformas digitais de folha de pagamento para acelerar originação sem expandir significativamente a estrutura física.
Já o Santander Brasil tem utilizado sua base de clientes pessoa jurídica de médio porte para ofertar o produto de forma cruzada, enquanto o Banco do Brasil investe em parcerias com empresas exportadoras e do agronegócio, setores com menores taxas de rotatividade laboral.
Na esfera pública, a Caixa Econômica Federal administra carteira de aproximadamente R$ 9 bilhões e projeta incremento expressivo após ajustes sistêmicos previstos para setembro. O vice-presidente de Finanças, Marcos Brasiliano Rosa, confirmou que o banco pretende escalar a concessão à medida que a interoperabilidade com o DataPrev for estabilizada.
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Pendências operacionais e novo arcabouço regulatório moldam cenário competitivo
O principal entrave técnico refere-se à portabilidade automática entre instituições quando o trabalhador troca de emprego. Atualmente, um novo contrato precisa ser formalizado, o que gera fricção operacional e custos extras. A DataPrev iniciou adaptações em maio e projeta conclusão em setembro, permitindo que o empréstimo acompanhe o empregado e mantendo a garantia de desconto em folha.
Além disso, bancos e governo chegaram a consenso parcial sobre o uso do FGTS como garantia complementar. Operações realizadas nos aplicativos das instituições deverão seguir requisitos adicionais de transparência, enquanto transações via CTPS Digital permanecerão sem restrições de formato. A mudança atende pleito do setor por usabilidade, ao mesmo tempo que mantém supervisão do Ministério do Trabalho.
Nova portaria publicada em abril estabeleceu punições para juros acima da referência calculada pela pasta. O custo efetivo total das operações feitas por plataformas digitais está limitado a 1 p.p. acima da taxa mensal do empréstimo. Em março, o juro médio da linha atingiu 56,8 % a.a. (3,8 % a.m.). A agência de classificação Fitch avalia que incertezas regulatórias e operacionais ainda pressionam spreads, mas reconhece potencial de diluição de risco no médio prazo.
Conclusão técnica: consolidação prevista e ajustes essenciais para escalabilidade
A corrida pelo consignado privado reflete a busca das instituições por crédito de menor risco em ambiente de juros altos e inadimplência crescente. A carteira acima de R$ 100 bilhões sinaliza tração inicial robusta, mas a plena maturação do produto depende da implementação total das melhorias do DataPrev e da efetividade do teto regulatório de juros. Com a portabilidade automatizada e a integração das garantias do FGTS, espera-se intensificação da competição por empresas com grandes folhas de pagamento, elevação gradual da participação do consignado privado no mix de crédito e, consequentemente, maior previsibilidade de fluxo para os bancos nos próximos trimestres.




