Brasil cancela 2 mil voos em maio após disparada do querosene de aviação

Companhias aéreas brasileiras retiraram aproximadamente 2 mil voos de suas malhas em maio, reflexo direto da elevação do preço do querosene de aviação (QAV) causada pela valorização internacional do petróleo e pelo fim da desoneração tributária no país.

Escalada do petróleo pressiona custos operacionais

Desde o início do conflito no Oriente Médio, a cotação do Brent saltou de US$ 73 para US$ 118 por barril, quase o dobro do valor praticado antes das tensões geopolíticas. Embora o preço tenha recuado para US$ 93 nesta semana, o patamar continua elevado em relação à média histórica recente. O cenário inflacionário pressiona diretamente o QAV, insumo que responde por cerca de 35% a 40% dos custos totais de uma companhia aérea.

No Brasil, a Petrobras utiliza a fórmula de preços de paridade de importação para o QAV, o que atrela o combustível às oscilações do mercado externo e à taxa de câmbio. Com o real depreciado e o petróleo mais caro, as transportadoras enfrentam repasse imediato nos valores de compra.

Efeito nos voos e na demanda de passageiros

Dados do sistema SIROS, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), indicam que 93 voos diários deixaram de ser ofertados em maio, correspondendo a mais de 14 mil assentos vazios ao longo do mês. Em rotas regionais, onde a sensibilidade de preço é maior e a ocupação média costuma ser inferior, as companhias reduziram frequências ou suspenderam temporariamente operações para mitigar perdas financeiras.

Trechos de alta densidade, como São Paulo–Rio de Janeiro e São Paulo–Brasília, continuam preservados por concentrarem demanda corporativa e oferecerem maior rentabilidade. Executivos ouvidos reservadamente, contudo, sinalizam a possibilidade de cortes nessas ligações se o barril permanecer acima de US$ 90 por período prolongado.

Tributação volta a incidir sobre o QAV em junho

O decreto federal que zerou PIS/Cofins sobre o QAV expira em 31 de maio. Sem perspectiva de renovação, as alíquotas retornam em 1.º de junho, ampliando a pressão sobre as companhias. Consultorias especializadas projetam incremento médio de R$ 0,23 por litro somente pela reoneração, além de um novo reajuste esperado no preço de venda da Petrobras na mesma data.

Em 2025, o setor havia obtido alívio temporário com a redução tributária, medida que evitou cortes mais profundos na oferta. Agora, o duplo impacto – recomposição fiscal e encarecimento do petróleo – deve levar as empresas a revisarem planos de expansão, postergarem entregas de aeronaves e renegociarem contratos de leasing.

Possíveis repercussões para mercados regionais e tarifas

Destinos atendidos majoritariamente por aeronaves de pequeno porte, a exemplo de Montes Claros (MG), Petrolina (PE) e Imperatriz (MA), podem enfrentar menor conectividade nos próximos trimestres. A concentração de operações em hubs como Guarulhos, Galeão e Brasília tende a gerar efeito cascata nas tarifas, já que a redução de assentos disponíveis eleva o fator de ocupação e permite às companhias reajustar preços.

Agências de turismo corporativo informam aumento médio de 12% a 18% nos bilhetes para viagens emitidas com antecedência inferior a 14 dias, indicador típico de ambientes de capacidade reduzida. Consumidores de lazer, mais sensíveis a variações de preço, podem adiar deslocamentos, afetando a cadeia de hotelaria, aluguel de veículos e serviços locais.

Cenário geopolítico e logística do Estreito de Ormuz

O Estreito de Ormuz, ponto estratégico por onde circula cerca de 20% do petróleo global, permanece operando com restrições devido às tensões entre Estados Unidos e Irã. As negociações de paz avançam lentamente, mantendo elevada a percepção de risco nos mercados futuros de energia. Enquanto não houver normalização do fluxo marítimo, analistas descartam retorno do barril a níveis pré-conflito.

Companhias aéreas latino-americanas, dependentes de importações para suprir demanda interna de QAV, enfrentam volatilidade adicional gerada pela cotação do dólar. Esse quadro reforça a importância de estratégias de hedge, renegociação de contratos de combustível e revisão de malha para manter liquidez.

Conclusão técnica

A aviação comercial brasileira encerrou maio com a retirada de aproximadamente 2 mil voos de seu cronograma, impacto direto da alta do QAV alimentada pelo petróleo valorizado e pela reoneração de tributos. Sem indicação de trégua no cenário geopolítico e com novo reajuste programado pela Petrobras, o setor deve promover cortes adicionais em rotas de menor demanda, revisar projeções de frota e buscar eficiências operacionais para enfrentar custos crescentes. Caso os preços internacionais não recuem e o governo mantenha a carga fiscal integral, a tendência é de oferta mais enxuta, tarifas em alta e maior concentração de voos em mercados de alta densidade nos próximos meses.