Durante o ETF Day realizado em 6 de maio de 2026, Guilherme Mattioli, gestor da BTG Asset, afirmou que não há indícios de fragilidade estrutural na indústria de crédito brasileira e classificou o atual cenário como propício para alocações em renda fixa privada, após a reprecificação que ampliou os spreads dos títulos corporativos.
Ajustes de preços abriram espaço para prêmios mais atraentes
O primeiro quadrimestre do ano foi marcado por uma série de recuperações judiciais e por intervenções em instituições financeiras, o que desencadeou vendas massivas de debêntures, CRIs, CRAs e títulos bancários. Esse movimento pressionou as cotações e elevou as taxas de retorno. Segundo Mattioli, a combinação entre reduções de preço e ampliação dos spreads devolveu atratividade ao crédito privado, tornando o nível de remuneração novamente compatível com o risco embutido.
O gestor destacou que, no auge das captações de 2025, a procura por papéis de renda fixa privada comprimiu os prêmios de risco, reduzindo a compensação ao investidor. Com a reversão desse quadro, títulos de empresas de grande porte voltaram a oferecer retornos próximos de CDI + 2,0 a 3,0 pontos percentuais, patamar considerado saudável para emissores de grau de investimento.
Apesar do aumento recente dos casos de inadimplência pontual, Mattioli reforçou que as recuperações anunciadas já eram esperadas, pois as companhias haviam sinalizado dificuldade financeira ao mercado. Dessa forma, não se configura uma crise sistêmica, mas sim um processo de seleção natural entre empresas mais e menos preparadas para um período prolongado de juros altos.
Liquidez cresce e mercado secundário ganha relevância
Uma década atrás, a maior parte dos investidores comprava papéis corporativos com a intenção de carregá-los até o vencimento. Hoje, o mercado dispõe de um secundário estruturado, no qual as transações diárias permitem ajustar posições de maneira mais ágil. Mattioli citou que esse avanço em liquidez aproximou o comportamento dos títulos de crédito ao das ações listadas em bolsa, tornando as cotas de fundos especializados mais voláteis, porém também mais transparentes quanto à formação de preço.
Eventos macroeconômicos, variações cambiais e divulgações de resultados corporativos passaram a repercutir quase instantaneamente nas debêntures. Para o gestor, essa dinâmica exige monitoramento constante, mas amplia oportunidades para operações táticas de curto prazo. Ele acrescentou que a sofisticação dos participantes elevou a maturidade do mercado, reduzindo o pânico em momentos de estresse e facilitando a absorção de notícias negativas.
Mesmo diante das turbulências recentes, o volume médio negociado em debêntures no secundário supera R$ 1 bilhão diários, segundo dados da B3. Em 2016, esse montante era inferior a R$ 200 milhões, evidenciando a expansão de profundidade e liquidez do segmento.
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Estratégias de diversificação: destaque para o ETF DEBB11
No evento, BTG Pactual apresentou o DEBB11, fundo de índice que replica um indicador composto por 211 debêntures de grandes companhias, todas indexadas ao CDI. Mattioli ressaltou três vantagens principais do veículo: custos operacionais reduzidos, liquidez de bolsa com liquidação em dois dias úteis e tributação simplificada, uma vez que ETFs não sofrem come-cotas nem IOF. Quando o prazo médio da carteira supera 24 meses, a alíquota de Imposto de Renda fica travada em 15 %, independentemente do tempo de permanência do cotista.
Comparado à compra direta de uma debênture, o ETF dilui risco de concentração e elimina a dificuldade de encontrar comprador no mercado secundário a preços justos. Já em relação aos fundos tradicionais de crédito, o DEBB11 oferece prazo de resgate mais curto e transparência diária de cota. Embora acompanhe de perto o índice de referência, a gestão possui pequena margem para ajustes, podendo sub-ponderar papéis específicos caso surjam preocupações com o emissor.
O produto se insere em um movimento mais amplo de tokenização da renda fixa, que busca democratizar o acesso a carteiras diversificadas de crédito corporativo. A tendência, segundo analistas do mercado, deve estimular o surgimento de outros ETFs focados em faixas diferentes de rating e de indexadores, ampliando o cardápio disponível ao investidor pessoa física.
Conclusão técnica
A avaliação da BTG Asset indica que os episódios recentes de inadimplência não alteraram a solvência média das empresas brasileiras, tampouco comprometeram a estrutura do mercado de crédito. O ajuste de preços verificado desde o início do ano reestabeleceu prêmios de risco adequados e criou uma janela atrativa para alocar em renda fixa privada, sobretudo em papéis de companhias de maior porte e boa governança.
Para os próximos meses, a evolução dependerá de variáveis como a trajetória da Selic, a capacidade das empresas de rolar dívidas em cenário de custos elevados e o comportamento dos investidores diante de eventuais novos eventos de crédito. A liquidez crescente e a disponibilidade de instrumentos como o DEBB11 tendem a facilitar ajustes de portfólio, enquanto a maturidade do mercado deve mitigar movimentos de venda exacerbada. Em um ambiente de spreads mais largos e fundamentos corporativos ainda resilientes, a renda fixa privada consolida-se como alternativa competitiva frente a títulos públicos e à renda variável.


