CEO da Casas Bahia detalha estratégia para reverter prejuízo de R$ 1 bi no 1T26 e busca lucro sem depender da Selic

Casas Bahia reportou prejuízo de R$ 1 bilhão no primeiro trimestre de 2026, queda que derrubou as ações em 9,31%, enquanto o CEO Renato Franklin apresentou um plano de geração de lucro independente da taxa Selic, ancorado na reestruturação do balanço, redução de despesas financeiras e expansão digital.

Resultado financeiro pressiona o trimestre e surpreende o mercado

A varejista listada sob o código BHIA3 encerrou o 1T26 com R$ 1,17 bilhão de resultado financeiro negativo, aumento anual de 27%. Esse movimento elevou o prejuízo líquido para R$ 1 bilhão, valor superior às projeções de analistas e quatro vezes maior que o rombo de R$ 408 milhões registrado um ano antes. A divulgação provocou ajuste imediato: os papéis recuaram de R$ 2,04 para R$ 1,85 ao final do pregão de 14 de maio, variação de -9,31%.

O banco Safra avaliou o resultado como “fraco”, mas ressaltou sinais de avanço operacional, principalmente na queda gradual das despesas vinculadas à antecipação de recebíveis e ao financiamento de fornecedores. Na teleconferência, Renato Franklin afirmou que a companhia “saiu do modo sobrevivência” e agora enfrenta o desafio de determinar quando voltará a gerar lucro.

Reestruturação do balanço estende prazos e reduz custo de capital

Concluído no final de 2025, o processo de reorganização financeira alongou o prazo médio das obrigações de 22 para 72 meses, converteu debêntures em ações e trocou dívidas de curto prazo por passivos de longo prazo. Conforme explicou o CFO Élcio Ito, entre R$ 800 milhões e R$ 900 milhões em financiamentos ligados ao crediário vencem mensalmente e são renovados em condições mais brandas, reduzindo a pressão sobre o fluxo de caixa.

A carteira de crediário possui prazo médio de 14 meses, o que implica reciclagem gradual até que todo o estoque antigo seja substituído por captações mais baratas. A administração projeta que o impacto pleno dessa troca só será percebido em 2027. Até lá, a redução da despesa financeira depende do ritmo de vencimento dos contratos legados e da manutenção de linhas de crédito em condições competitivas.

A estratégia não se ancora na trajetória dos juros básicos. “Não estamos contando com cortes da Selic; se acontecer, será benefício adicional”, destacou Franklin. O discurso visa demonstrar resiliência do plano diante de um cenário macroeconômico ainda restritivo.

Expansão digital e parcerias fortalecem receita e alcançam novos públicos

Enquanto a receita nas lojas físicas caiu 1,6% para R$ 6,2 bilhões, o canal online 1P (venda própria) disparou 27,4% e atingiu R$ 3,2 bilhões. O avanço decorre, sobretudo, de acordos com Mercado Livre, Shopee e Amazon, que ampliam a visibilidade da marca, elevam o tráfego qualificado e reduzem custos de aquisição de clientes. Segundo o CEO, vender dentro dessas plataformas “fica acima da mídia paga e abaixo do canal orgânico” em termos de rentabilidade.

As lojas físicas passaram a operar como hubs logísticos, encurtando prazos de entrega e melhorando a utilização de estoque. A estratégia também mitiga canibalização de vendas, pois a companhia tradicionalmente é forte nas classes C, D e E, enquanto os marketplaces alcançam perfis de renda mais alta.

Outro vetor prioritário é o credenciamento de serviços financeiros. A administração pretende elevar a participação do crediário nas vendas digitais e capturar receitas com seguros, garantias estendidas e soluções de pagamento. O apetite do mercado por funding específico para essa modalidade sustenta a projeção de margens melhores sem sacrificar qualidade de carteira, aponta Franklin.

Governança financeira e disciplina de crédito sustentam viabilidade do plano

A política de concessão de crédito permanece cautelosa nas lojas físicas, segmento mais exposto à população de renda baixa. A companhia evita expandir a carteira a qualquer custo para não comprometer indicadores de inadimplência e geração de caixa. “Não vamos comprar crescimento de curto prazo em detrimento da sustentabilidade”, reiterou o CEO.

Paralelamente, a gestão busca monetizar capacidades internas — logística, dados e base de clientes — para gerar fontes adicionais de receita. Essa abordagem diversifica o modelo de negócios e reduz dependência de vendas de mercadorias, área caracterizada por margens historicamente comprimidas no varejo de eletrônicos e bens duráveis.

Analistas observam que a combinação de menor custo financeiro, capital de giro mais eficiente e maior participação de serviços de maior margem é condição essencial para a virada de resultados. Contudo, a concretização depende da execução consistente e da manutenção de demanda, fatores ainda sujeitos à volatilidade macroeconômica.

Conclusão técnica

O prejuízo expressivo de R$ 1 bilhão no 1T26 reforça que o ciclo de recuperação da Casas Bahia permanece em curso, não concluído. A reestruturação prolongou prazos de dívida e deve reduzir encargos até 2027, enquanto parcerias digitais e expansão do crediário criam alavancas de receita com potencial de margem superior. Em paralelo, a companhia controla risco de crédito e preserva caixa para atravessar um ambiente de juros ainda elevados. O cronograma indica que a reversão para lucro depende da captura integral dos efeitos financeiros e da expansão rentável das operações digitais ao longo dos próximos trimestres.