O Banco do Brasil reportou retorno sobre patrimônio líquido de 7,3% no 1T26, o mais baixo em quase uma década, e reconheceu que a combinação de margens comprimidas e inadimplência elevada exige reforço de provisões e ajuste no ritmo de concessões para atravessar o ponto mais crítico do atual ciclo de crédito.
Custo de risco pressiona margens e reduz rentabilidade
A administração detalhou que o ROE de 7,3% reflete principalmente o crescimento do custo de risco, impulsionado pela deterioração na carteira do agronegócio e sinais iniciais de contágio na pessoa física. No comparativo anual, a margem financeira encolheu enquanto as despesas com provisões avançaram em ritmo superior ao da receita. O vice-presidente financeiro, Geovanne Tobias, classificou o trimestre como um “momento que precisa ser atravessado”, projetando normalização “não linear” ao longo de 2026.
Para conter a pressão, o banco adotou postura deliberadamente mais prudente na originação de crédito. Linhas sem garantia, como cartão de crédito e cheque especial, tiveram critérios de elegibilidade revisados, ao passo que produtos com menor risco, como crédito consignado, ampliaram participação. Paralelamente, a instituição intensificou a execução de garantias, sobretudo via alienação fiduciária, para mitigar perdas associadas a atrasos.
Agronegócio concentra maior parte dos atrasos
O agronegócio, historicamente motor de crescimento do Banco do Brasil, concentrou o maior volume de atrasos. Segundo o vice-presidente de riscos, Felipe Prince, não houve quebra generalizada de safra em 2024; entretanto, produtores vêm postergando pagamentos na expectativa de melhores preços de commodities e maior liquidez. O indicador de pontualização de vencimentos, que mede pagamentos no dia exato, subiu de 70% para 74% recentemente, mas permanece aquém do patamar considerado saudável.
Os executivos atribuíram a pressão atual a uma carteira herdada de períodos anteriores à adoção de uma matriz de risco mais rigorosa. Apenas 25% das operações rurais já seguem o novo modelo, o que limita a velocidade de melhoria nos indicadores. Parte das operações de ciclo longo pode manter níveis elevados de inadimplência até 2027.
Para antecipar potenciais perdas, a instituição utiliza monitoramento climático regionalizado. O fenômeno El Niño é acompanhado por ferramentas de análise de microclimas, possibilitando ajustes preventivos na concessão e na cobrança. Apesar das incertezas, a administração lembra que a produção agrícola nacional se manteve resiliente em eventos anteriores, ainda que com maior incidência de extremos em microrregiões.
Pessoa física entra no radar; programas de renegociação ganham tração
Na carteira de pessoa física, o ambiente macroeconômico de juros altos e endividamento crescente começa a produzir efeitos, sobretudo em linhas não garantidas. A direção reorientou originação para clientes com maior capacidade de pagamento e reforçou análises de renda. Paralelamente, programas de renegociação foram intensificados.
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O Desenrola BB, lançado após o programa governamental Desenrola 2.0, renegociou cerca de 90 mil contratos e movimentou R$ 500 milhões em apenas dez dias. A expectativa é de que a medida contribua para contenção da inadimplência e liberação de limite de crédito a partir do segundo semestre.
Para investidores, a consequência imediata da estratégia defensiva é a manutenção de dividendos extraordinários fora do horizonte. Os recursos permanecem direcionados à cobertura de perdas e ao fortalecimento do capital regulatório, em linha com o Plano de Capital do banco.
Perspectivas para 2026 e influxo de capital estrangeiro
Mesmo com os desafios domésticos, a administração vislumbra recuperação gradual do ROE para a faixa de 9% a 11% ainda em 2026, admitindo trajetória em formato de W. A melhora depende de três vetores: redução do custo de risco após maturação da carteira ajustada, normalização de margens com possível afrouxamento monetário e maior contribuição de linhas de baixo risco, como consignado e BB Crédito ao Trabalhador, cuja meta é atingir 20% de market share.
No front externo, o executivo Felipe Prince apontou que o Brasil tornou-se foco de interesse de investidores globais, tanto em crédito privado quanto em ações, e prevê fluxo positivo caso os conflitos geopolíticos mostrem acomodação. Esse capital pode ampliar liquidez de mercado e, indiretamente, reduzir custo de captação para o setor bancário.
Conclusão Técnica
O Banco do Brasil enfrenta simultaneamente margens comprimidas e aumento de inadimplência, cenário que reduziu o ROE para o menor nível em dez anos. A estratégia adotada combina reforço de provisões, execução de garantias, revisão de políticas de crédito e expansão de programas de renegociação. Embora o pico de estresse deva persistir no curto prazo, a administração projeta recuperação gradual entre o segundo semestre de 2026 e 2027, sustentada por carteiras sob nova matriz de risco, potencial afrouxamento monetário e ingresso de capital estrangeiro. A distribuição adicional de proventos permanece condicionada à normalização dos indicadores de qualidade de crédito e rentabilidade.




