Citi rebaixou a recomendação para as ações do Banco Inter negociadas na Nasdaq de “compra” para “neutra” e reduziu o preço-alvo de US$ 12 para US$ 6,50, quase 50% abaixo da projeção anterior, sinalizando visão mais cautelosa sobre a capacidade da instituição de cumprir suas metas de rentabilidade em meio a custos crescentes e deterioração de ativos.
Reação imediata do mercado e novos parâmetros de valuation
Na sessão em que o relatório foi publicado, INTR recuou 1,20 %, cotada a US$ 5,79, enquanto o BDR INBR32 caiu 2,89 %, para R$ 28,86. Mesmo após o corte, o alvo de US$ 6,50 ainda embute potencial de valorização de cerca de 11% sobre o fechamento mais recente, mas os analistas do Citi afirmam que o múltiplo preço/lucro já incorpora um cenário de ROE nos “mid-teens” (próximo de 15%). A equipe recorda que, desde a divulgação da estratégia “60/30/30”, os papéis acumulam alta de aproximadamente 150 % em dólar, movimento que, segundo o relatório, reduziu o espaço para novas reprecificações.
Pontos de pressão: qualidade de ativos e estrutura de custos
Os analistas Arnon Shirazi, Brian Flores e Gustavo Schroden destacam que a formação de créditos mais arriscados elevou as provisões, restringindo a expansão da margem financeira ajustada ao risco. Para mitigar perdas, a carteira vem migrando para linhas com garantia, movimento que limita crescimento acelerado. Paralelamente, as despesas operacionais surpreenderam negativamente: os custos de pessoal avançaram cerca de 20 % na comparação anual, mesmo sem aumento relevante do quadro de funcionários, sinalizando maior custo de mão de obra.
A combinação entre deterioração de ativos e custos ascendentes eleva o risco para os lucros de curto prazo, observa o Citi. O banco norte-americano acrescenta que a expansão operacional perdeu fôlego e os ganhos de eficiência estagnaram, diminuindo a visibilidade de recuperação de margens no horizonte próximo.
Receitas sob pressão e desafios competitivos
No âmbito das receitas, o relatório aponta desaceleração nas tarifas, sobretudo em cartões de crédito, reflexo do menor crescimento do volume total de pagamentos. As receitas não ligadas a crédito não acompanham o avanço da carteira, o que restringe o crescimento do ARPAC (Receita Média Mensal por Cliente Ativo). Além disso, a conquista de participação em produtos estratégicos, como crédito consignado, tende a ser mais difícil em um ambiente competitivo intenso, reforçando os riscos de execução.
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Meta de ROE de 30 % em cheque
O Banco Inter ingressou em uma nova fase descrita pela gestão como o “terceiro capítulo”, cujo objetivo é comprovar que o modelo digital gera rentabilidade consistente. A instituição mantém a meta de ROE de 30 %, amparada na diretriz “60/30/30” — combinação de margem de juros, eficiência e retorno. Entretanto, o Citi avalia que, se as tendências atuais persistirem, alcançar esse patamar será complexo. Com a monetização limitada, despesas ascendentes e pressão na qualidade dos ativos, o relatório indica que o mercado já atribui parte do êxito futuro ao preço atual, diminuindo o prêmio por execução bem-sucedida.
Conclusão técnica
O corte drástico no preço-alvo e o rebaixamento de recomendação refletem avaliação de que a ação do Banco Inter precifica boa parte do potencial de crescimento dos últimos trimestres, enquanto os indicadores operacionais sinalizam desafios crescentes. Margens comprimidas, custos acima do previsto e menor contribuição de receitas de serviços compõem um quadro que pressiona a rentabilidade projetada. Para retomar trajetória de valorização expressiva, a instituição precisará demonstrar ganho de eficiência, estabilizar a qualidade da carteira e sustentar crescimento de receitas não creditícias. Até que esses elementos se consolidem, a recomendação do Citi indica expectativa de desempenho em linha com o mercado.




