Copom avalia corte ou manutenção da Selic em 14,50% diante de choque do petróleo e trégua EUA-Irã

O Comitê de Política Monetária decide nesta quarta-feira (17) se mantém a Selic em 14,50% ao ano ou se inicia um ciclo de afrouxamento, enquanto a inflação pressionada pelo petróleo e a perspectiva de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã criam o cenário mais dividido desde 2024.

Choque de oferta de petróleo eleva risco inflacionário global

A escalada militar no Oriente Médio, iniciada em março, retirou cerca de 2,1 milhões de barris diários do mercado, segundo a Agência Internacional de Energia. O movimento fez o Brent saltar de US$ 71 em fevereiro para US$ 96 no início de junho, espalhando pressões sobre o índice de preços ao consumidor em economias emergentes e desenvolvidas. No Brasil, a estimativa mediana do Relatório Focus para o IPCA de 2026 subiu de 3,9% para 4,4% em apenas oito semanas.

Para conter a inércia inflacionária, dirigentes do Banco Central sinalizaram, na ata de abril, que “manter juros em território significativamente contracionista” seria condição necessária até que os efeitos de segunda ordem se dissipassem. A manutenção em 14,50% seria, portanto, coerente com a estratégia de ancorar expectativas num ambiente de preços de combustíveis ainda volátil.

Trégua diplomática entre EUA e Irã amplia espaço para flexibilização monetária

Em caminho oposto, a Casa Branca e o governo iraniano anunciaram, na segunda-feira (15), um pré-acordo de paz que prevê cessar-fogo definitivo, reabertura de instalações de produção e liberação gradual de exportações. O cronograma divulgado pelo Departamento de Estado indica que 1,4 milhão de barris/dia podem voltar ao mercado até dezembro, o que tende a reduzir o prêmio de risco embutido no petróleo.

Um eventual arrefecimento dos preços das commodities energéticas reforçaria, segundo as comunicações recentes do Copom, a possibilidade de iniciar cortes graduais de juros, aliviando o recorde de endividamento das famílias, hoje em 49,8% da renda. O ex-diretor do Banco Central Reinaldo Le Grazie, sócio da Panamby Capital, classificou o cenário como “o mais assimétrico dos últimos anos”, ressaltando que uma postura preventiva pode evitar contração prolongada do crédito corporativo.

Super Quarta: sincronização entre Copom e Federal Reserve

A sessão coincide com a estreia de Kevin Warsh na presidência do Federal Reserve. Analistas projetam manutenção do target dos Fed Funds em 4,75%-5,00%, porém o mercado monitora o dot plot em busca de sinal sobre o ritmo de cortes em 2027. A correlação histórica entre Selic e Fed Funds, estimada pela Fundação Getulio Vargas, indica que uma desaceleração monetária nos EUA costuma abrir margem de 150 a 200 pontos-base para flexibilização no Brasil no horizonte de seis meses, desde que a diferença de juros reais permaneça superior a 4 p.p.

No pregão da manhã, o Ibovespa futuro operava estável, refletindo cautela dos agentes. Os contratos Brent para agosto avançavam 0,22%, enquanto o dólar comercial recuava a R$ 5,27. Já o DI jan/28 marcava 11,33% ao ano, precificando probabilidade implícita de 52% para corte de 0,25 p.p. ainda hoje.

Indicadores domésticos reforçam ambiguidade na condução da política econômica

O IBC-Br de maio, divulgado nesta manhã pelo Banco Central, apontou expansão de 0,3% na comparação dessazonalizada, sugerindo atividade resiliente mesmo com custo de capital elevado. Em contrapartida, pedidos de recuperação judicial cresceram 38% em 12 meses, e o estoque de crédito em atraso acima de 90 dias atingiu 5,9% da carteira total, maior patamar desde 2021.

No setor corporativo, indicadores de confiança industrial publicados pela CNI registraram queda de 1,7 ponto, refletindo gargalos logísticos decorrentes do encarecimento do transporte marítimo. Já no mercado de consumo, o índice de intenção de compras da CNC avançou 0,5 ponto, beneficiado por reajustes salariais acima da inflação no primeiro semestre.

Conclusão técnica

O Copom enfrenta o desafio de calibrar a Selic entre pressões inflacionárias ainda latentes, provocadas pela oferta restrita de petróleo, e a perspectiva de alívio futuro caso o acordo EUA-Irã se consolide. A decisão desta quarta-feira definirá o ponto de inflexão para o custo do crédito no segundo semestre, condicionando estratégias de hedge, projeções fiscais e a dinâmica de mercado no curto prazo. Mantida a taxa em 14,50%, o Banco Central sinaliza prioridade absoluta ao controle de preços; iniciado o corte, indicará confiança na normalização das cadeias de energia e na trajetória benigna do IPCA a partir de 2027. O comunicado pós-reunião deverá detalhar o balanço de riscos, destacando sensibilidade à volatilidade geopolítica e dependência dos indicadores de atividade doméstica que serão divulgados no próximo trimestre.