Levantamento da EY indica que o endividamento líquido dos 20 clubes da Série A chegou a R$ 14,3 bilhões em 2025, 15 % acima de 2024, ao mesmo tempo em que a receita conjunta avançou 33 %, para R$ 14,9 bilhões, expondo a disparidade entre geração de caixa e obrigações financeiras.
Escalada do endividamento: panorama geral de 2025
O relatório da EY, uma das maiores consultorias globais de auditoria, mapeou o passivo dos principais clubes brasileiros e constatou crescimento em praticamente todas as categorias de dívida. O montante líquido de R$ 14,3 bilhões reflete um acréscimo de 15 % em relação a 2024, impulsionado por aumento de empréstimos, obrigações tributárias e inflação nos valores de mercado dos atletas.
No recorte tributário, Corinthians, Botafogo, Fluminense e Atlético-MG concentram 62 % do total devido, sinalizando vulnerabilidade fiscal. Já os compromissos com empréstimos ganharam destaque no RB Bragantino, cuja dívida é majoritariamente interna ao grupo Red Bull, sem juros e sem data de vencimento, característica que difere do padrão do setor.
Além da expansão absoluta do passivo, há mudança qualitativa: parcelas de curto prazo aumentaram, pressionando fluxo de caixa. O índice de endividamento líquido em relação à receita, analisado no estudo, ilustra essa dinâmica.
Clubes no vermelho: maiores devedores e variações extremas
Entre os 20 participantes da Série A, Atlético-MG e Botafogo lideram, cada um com obrigações superiores a R$ 2 bilhões. Corinthians e Palmeiras surgem na sequência, com endividamento líquido em torno de R$ 1 bilhão. No caso corintiano, dívidas referentes à Arena permanecem em demonstração financeira distinta, o que tende a subestimar a exposição real do clube quando avaliado isoladamente.
Pelo lado positivo, o Bahia registrou a maior redução proporcional: 80 % de queda, de R$ 821 milhões em 2024 para R$ 168 milhões em 2025. A conversão de mútuo com o Grupo City em adiantamento para futuro aumento de capital explica a melhora do indicador.
O Ceará apresentou o maior salto percentual, 267 %, passando de R$ 44 milhões para R$ 161 milhões. A elevação está associada ao acesso à Série A, expansão da folha salarial e aumento de empréstimos, que saltaram de R$ 21 milhões para R$ 84 milhões.
Receita recorde e concentração de faturamento
Apesar da pressão do passivo, a receita total dos clubes atingiu R$ 14,9 bilhões, crescimento de 33 % em doze meses e de 73 % desde 2021. Contudo, esse avanço não foi distribuído uniformemente: Flamengo, Palmeiras, Botafogo, São Paulo e Fluminense responderam por 49 % do faturamento do grupo.
Imagem: Internet
A venda de jogadores representou R$ 3,9 bilhões, 45 % acima de 2024. Direitos de transmissão e premiações somaram R$ 4,9 bilhões, impulsionados pela primeira edição da Copa do Mundo de Clubes. O Fluminense, semifinalista do torneio, elevou sua receita nessa rubrica em 247 %, saindo de R$ 167 milhões para R$ 580 milhões.
Mesmo com a entrada extraordinária de recursos, a capacidade de conversão em liquidez para amortização de dívidas continua limitada, dado o aumento paralelo das despesas operacionais e dos investimentos em elenco.
Indicadores de saúde financeira: relação dívida/receita
O índice que compara endividamento líquido e receita aponta Atlético-MG na pior situação, com múltiplo de 3,44 vezes. Na sequência aparecem Corinthians (2,81) e São Paulo (2,24). Por outro lado, apenas seis clubes registraram indicador abaixo de 1, destacando-se Fluminense (0,99), Palmeiras (0,83) e Flamengo (0,42), evidenciando maior sustentabilidade financeira.
Juventude e Mirassol não reportaram endividamento líquido, mas o histórico recente e a menor capacidade de geração de receita sugerem cautela na interpretação — pequenos desvios orçamentários podem alterar rapidamente esse quadro.
Conclusão técnica
O ciclo 2025 confirma que a expansão de receita, ainda que robusta, não tem sido suficiente para neutralizar o avanço dos passivos dos clubes brasileiros. A trajetória ascendente das dívidas, combinada à alta concentração de faturamento em poucos participantes, impõe risco estrutural ao setor. A adoção de modelos societários com aporte de capital externo, casos de Bahia e Botafogo, tende a ganhar escala como alternativa de saneamento financeiro. Para 2026, a expectativa recai sobre ajustes nos contratos de direitos de transmissão, eventuais novas transações de atletas e mecanismos de controle de gastos operacionais como vetores determinantes para reduzir a alavancagem e aproximar o fluxo de caixa operacional do patamar das obrigações de curto e médio prazos.




