Sargento-mor Mohamed Mahudhee morreu em 16 de março após subir rapidamente de 60 m de profundidade durante o resgate de quatro turistas italianos desaparecidos no Atol de Vaavu, nas Maldivas. A causa oficial foi doença descompressiva, síndrome provocada pela formação abrupta de bolhas de nitrogênio nos tecidos e na circulação sanguínea.
O que é a doença descompressiva e por que ocorre
Conhecida na literatura médica como “decompression sickness”, a doença descompressiva surge quando o organismo sofre uma queda súbita de pressão ambiente. Em mergulhos autônomos profundos com ar comprimido, o nitrogênio inalado dissolve-se nos tecidos em proporção direta à pressão. Se o retorno à superfície é acelerado, o gás perde solubilidade e forma microbolhas. De acordo com o Manual MSD, essas bolhas bloqueiam vasos, comprometendo a oxigenação de órgãos vitais.
Os sintomas variam: dores articulares intensas (the bends), coceira cutânea, vertigem, disfunções neurológicas, infarto, AVC e morte súbita. Diretrizes internacionais limitam o mergulho recreativo a 30 m; abaixo desse ponto, paradas de descompressão são obrigatórias para eliminar gradualmente o nitrogênio pelo pulmão.
Cronologia do incidente no Atol de Vaavu
14 de março – Quatro turistas italianos, liderados pela bióloga marinha Monica Montefalcone, exploram cavernas subaquáticas e atingem 49 m, ultrapassando o limite recreativo. Correntes fortes e ambiente confinado dificultam a subida controlada, e o grupo desaparece.
16 de março, manhã – A Força de Defesa Nacional das Maldivas inicia operação de “alto risco”, mobilizando mergulhadores, embarcações e aeronaves. O sargento-mor Mahudhee desce a 60 m para busca em caverna profunda.
16 de março, tarde – Após localizar os corpos italianos, o militar inicia a ascensão. Relatos preliminares indicam tempo insuficiente para paradas de descompressão, possivelmente devido à reserva limitada de gás.
16 de março, 17h (horário local) – Mahudhee apresenta sintomas agudos de doença descompressiva poucos minutos após emergir. O traslado até uma câmara hiperbárica em Malé leva mais de uma hora. O militar não resiste.
Imagem: Internet
Sintomas, diagnóstico e tratamento de emergência
Casos leves manifestam dores articulares, fadiga e erupções cutâneas. Situações graves, como a de Mahudhee, evoluem para colapso circulatório, paralisia ou parada cardiorrespiratória. O protocolo padrão exige:
- Administração imediata de oxigênio 100 % por máscara.
- Hidratação intravenosa para estabilizar a circulação.
- Transporte rápido a uma câmara hiperbárica, onde a pressão é elevada até dissolver novamente as bolhas.
Em ambiente hiperbárico, o paciente permanece sob pressão controlada por horas, seguido de descompressão lenta. O sucesso do procedimento diminui drasticamente quando iniciado com atraso superior a 2 h.
Desafios operacionais em áreas remotas
Ilhas do Oceano Índico, como Vaavu, dispõem de estrutura médica limitada. O deslocamento aéreo até a capital Malé pode exceder 70 km, aumentando o intervalo entre o aparecimento dos sintomas e o início da terapia hiperbárica. A carência de misturas gasosas avançadas (heliox ou trimix) agrava o risco para mergulhos além de 50 m.
Para reduzir incidentes, mergulhadores militares e civis seguem tabelas computadorizadas que calculam tempo de fundo, velocidade de subida e paradas obrigatórias. Falhas no cumprimento desse roteiro ou imprevistos que acelerem a ascensão elevam exponencialmente a probabilidade de doença descompressiva.
Conclusão Técnica
O óbito do sargento-mor Mahudhee evidencia a letalidade da doença descompressiva em operações profundas sem janela de descompressão adequada. Investigações da Marinha das Maldivas focam na autonomia de gás disponível, na tomada de decisão durante a subida e na logística de evacuação médica. Protocolos internacionais recomendam ampliar o acesso a câmaras hiperbáricas móveis e reforçar o treinamento em uso de misturas respiratórias específicas para intervenções abaixo de 40 m. Até a conclusão do inquérito, autoridades locais mantêm restrições temporárias a mergulhos além do limite recreativo no Atol de Vaavu.




