Analistas do Bank of America alertam que um Super El Niño na safra 2026/27 pode ampliar a pressão financeira sobre produtores rurais, elevar a inadimplência do crédito agrícola e reduzir o lucro de bancos e seguradoras expostos ao agronegócio. A projeção aponta Banco do Brasil como a instituição mais vulnerável, com possíveis repercussões também para Banrisul, ABC Brasil, Porto e BB Seguridade.
Fenômeno climático deve encarecer a produção e atrasar a recuperação do agronegócio
De acordo com o levantamento, um evento El Niño mais intenso tende a repetir o padrão histórico de chuvas volumosas nas regiões Sul e clima quente e seco no Centro-Oeste. Esse cenário prejudica culturas de soja e milho, que respondem por aproximadamente 85 % da produção de grãos do país, e compromete o fluxo de caixa do produtor em um momento de juros elevados e alavancagem relevante.
Além do clima adverso, persistem disrupções na cadeia global de fertilizantes, influenciadas por tensões geopolíticas no Oriente Médio, o que mantém os custos de insumos em patamares altos. O BofA ressalta que, caso o fenômeno atinja intensidade de “Super El Niño”, a combinação de margens pressionadas e custos crescentes tende a atrasar a recuperação setorial não apenas em 2026, mas nas safras subsequentes de 2027 e 2028.
Pressão sobre o crédito: bancos mais expostos podem elevar provisões
O estudo identifica Banco do Brasil (BBAS3) como a instituição financeira com maior sensibilidade a um choque climático, devido à sua exposição significativa ao crédito rural. O banco estatal já vinha registrando aumento de renegociações e maior inadimplência nos últimos trimestres; um novo estresse climático pode intensificar essa dinâmica, exigindo provisões adicionais.
Banrisul (BRSR6) e ABC Brasil (ABCB4) também figuram entre os nomes vulneráveis. A avaliação do BofA prevê “maiores renegociações de crédito e elevação dos índices de inadimplência”, mesmo que programas de renegociação aliviem parcialmente os efeitos de curto prazo. Para os analistas, cada ponto percentual de piora na inadimplência pode representar impacto direto nos lucros recorrentes, pressionando a rentabilidade dessas instituições.
Seguradoras enfrentam alta de sinistralidade em segmentos-chave
No setor de seguros, o BofA projeta incremento na frequência de sinistros decorrentes de chuvas excessivas em áreas residenciais e rurais, além de danos a frotas no segmento automotivo. A cada aumento de 1 p.p. no índice de sinistralidade, o lucro das seguradoras pode recuar cerca de 1 %, segundo as estimativas.
Imagem: Internet
Porto (PSSA3) e BB Seguridade (BBSE3) apresentam maior exposição, dado o peso de carteiras em ramos suscetíveis a eventos climáticos. Já Caixa Seguridade (CXSE3), apoiada por diversificação e uso de resseguros, tende a registrar menor sensibilidade. Apesar disso, o banco norte-americano destaca que a diversificação de portfólio e contratos de resseguros podem mitigar parte das perdas potenciais.
Recomendações e métricas de risco divulgadas pelo Bank of America
Diante do cenário de maior volatilidade climática, o BofA mantém postura cautelosa em relação às empresas mais impactadas. As recomendações publicadas são:
- Banco do Brasil (BBAS3): Underperform (equivalente a venda).
- ABC Brasil (ABCB4): Underperform.
- Banrisul (BRSR6): Underperform.
- BB Seguridade (BBSE3): posição Neutra.
- Porto (PSSA3): posição Neutra.
- Caixa Seguridade (CXSE3): recomendação de Compra.
Os analistas observam que o El Niño passa a ser incorporado como variável direta nos modelos de previsão de lucro para bancos e seguradoras listados na B3. A ênfase recai sobre dois indicadores-chave: qualidade de ativos (para instituições financeiras) e sinistralidade (para seguradoras).
Conclusão Técnica
O possível Super El Niño representa um vetor adicional de risco para o sistema financeiro brasileiro, especialmente em segmentos com vínculo direto ao agronegócio. Caso o fenômeno se confirme nos níveis de intensidade projetados, a tendência é de aperto de caixa para produtores, necessidade de provisões mais robustas nos bancos e aumento de sinistralidade para seguradoras. O Bank of America indica monitoramento permanente das condições climáticas e dos índices de inadimplência e sinistros nos próximos trimestres, buscando identificar eventuais revisões de lucro entre 2026 e 2028.




