Autoridades portuárias assinam nesta segunda-feira, 25 de março, o contrato que dará início ao estudo técnico para remover o casco do vapor frigorífico Pallas, naufragado desde 25 de outubro de 1893 na foz do rio Itajaí-Açu, medida considerada estratégica para ampliar o calado operacional e receber navios de maior porte no Porto de Itajaí.
Origem e relevância histórica do Pallas
Construído em 1891, nos estaleiros ingleses, o Pallas foi projetado como navio a vapor frigorífico para o transporte de carnes entre Buenos Aires e Rio de Janeiro, com escalas ocasionais em Itajaí para embarque de carvão. Durante a Revolta da Armada (1893), setores da Marinha do Brasil requisitaram a embarcação, porém registros indicam uso logístico, sem envolvimento direto em combate. Depois de naufragar em 1893, o casco permaneceu esquecido até ser redescoberto em 2017, quando dragagens de aprofundamento atingiram sua estrutura e paralisaram operações no canal.
Pesquisas posteriores comprovaram que o navio mede aproximadamente 67 metros de comprimento — metade do que se cogitava inicialmente — e está partido em duas seções separadas por cerca de 40 metros. O achado reforçou o valor arqueológico do naufrágio, agora listado entre os mais emblemáticos do litoral catarinense.
Impacto logístico e econômico na modernização portuária
Segundo o superintendente Artur Antunes Pereira, a presença do casco limita a largura útil do canal de acesso e restringe a manobrabilidade de embarcações acima de 335 metros. A retirada é parte do plano de modernização que busca elevar a movimentação anual do complexo para além de 2 milhões de TEUs. O estudo contratado analisará batimetria, correntes e resistência estrutural dos destroços para garantir que a intervenção permita um aumento seguro do calado operacional, hoje restrito a 14 metros, para até 16 metros.
Entidades como a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) projetam ganhos diretos na cadeia logística estadual, com redução de escalas de transbordo em outros portos e atração de novos serviços de longo curso. Estima-se potencial de incremento de 15% na capacidade anual do terminal, além da geração de postos de trabalho qualificados durante as obras subsequentes.
Desafios técnicos e ambientais da operação
A área do naufrágio apresenta baixa visibilidade subaquática, fundo lamoso, água contaminada por material orgânico e tráfego intenso de embarcações. As correntes do estuário podem ultrapassar 4 nós em épocas de cheia, exigindo planejamento criterioso de janelas operacionais. Técnicos indicam a necessidade de corte controlado do casco em módulos, uso de guindastes flutuantes de grande porte e barreiras de contenção para partículas em suspensão.
Imagem: to de Itajaí
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) emitiu termo de referência que obriga resgate arqueológico, registro fotogramétrico em 3D e catalogação de itens remontáveis. Somente após a conclusão dessa etapa será autorizada a remoção física, cujo orçamento preliminar varia entre R$ 45 milhões e R$ 60 milhões, a depender do método definitivo escolhido.
Cronograma e trâmites institucionais
O contrato assinado nesta segunda-feira determina prazo de 120 dias para apresentação do relatório de viabilidade. Na sequência, o documento seguirá para análise da Agência Nacional de Transportes Aquaviários, da Marinha do Brasil e dos órgãos ambientais estaduais. Caso aprovado, o edital de execução deverá ser lançado no segundo semestre, com início das operações de campo estimado para o primeiro trimestre de 2025. A meta oficial é concluir a retirada antes da conclusão das obras de expansão dos berços 4 e 5, previstas para 2026.
Enquanto isso, a Autoridade Portuária manterá sinalização reforçada e monitoramento contínuo por ecobatímetro para evitar incidentes com navios de grande porte que já operam no estuário.
Conclusão Técnica
A assinatura do estudo de remoção do Pallas representa a etapa inicial de um projeto que combina segurança da navegação, preservação de patrimônio subaquático e ganho competitivo para o Porto de Itajaí. O progresso dependerá de validações sucessivas dos órgãos reguladores e da escolha de metodologia que concilie eficiência operacional com salvaguarda arqueológica. Se o cronograma for mantido, a retirada definitiva do casco poderá desbloquear novos patamares de calado e consolidar Itajaí como um dos principais hubs de contêineres do Atlântico Sul.




