Guerra no Irã antecipa demanda e eleva lucro da Eucatex em 37% no 1º trimestre; CFO prevê desafios adiante

A Eucatex reportou lucro líquido de R$ 138,4 milhões no primeiro trimestre de 2025, salto de 37,3% sobre igual período de 2024, impulsionada por consumo interno aquecido e pelo movimento de antecipação de compras motivado pela guerra no Irã; apesar do avanço, o diretor financeiro Sérgio Ribeiro projeta condições mais adversas a partir de 2027.

Resultados financeiros consolidam avanço operacional

A fabricante de painéis de madeira, pisos laminados, portas e tintas alcançou receita líquida de R$ 783,8 milhões, incremento anual de 5,2%. O EBITDA somou R$ 196,9 milhões, alta de 8,6%, com margem operacional avançando de 24,3% para 25,1%. A trajetória de rentabilidade foi reforçada pela redução da dívida líquida para R$ 561,8 milhões (-6,7% em 12 meses), o que derrubou a alavancagem de 0,9 vez para 0,7 vez EBITDA recorrente anualizado.

Os investimentos (capex) totalizaram R$ 104,8 milhões, voltados sobretudo à manutenção das unidades industriais e florestais. No caixa, a companhia encerrou março com R$ 527,9 milhões, sem vencimentos relevantes de dívida no curto prazo.

Política de renda e programas habitacionais sustentam consumo

Segundo o CFO, três vetores domésticos foram decisivos para o aumento de volume:

  • Salário mínimo real mais alto, elevando poder aquisitivo.
  • Ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, liberando renda disponível.
  • Continuidade e expansão do Minha Casa Minha Vida, que ampliou pedidos de portas, painéis e tintas.

A divisão de indústria moveleira e revenda expandiu receita para R$ 298,1 milhões (+11,4%), enquanto a vertical ligada à construção civil avançou a R$ 281,4 milhões (+11,7%).

O conflito no Irã adicionou um componente extraordinário: construtoras passaram a recompor estoques diante da perspectiva de inflação de insumos. De acordo com Ribeiro, esse movimento foi determinante para o desempenho acima da média histórica no bimestre março-abril, embora também tenha pressionado os custos da própria Eucatex, forçando reajustes de preço já em abril e maio.

Cenário externo oscila entre alívio tarifário e câmbio desfavorável

No mercado internacional, os Estados Unidos — destino de 75%–80% das exportações — revogaram a tarifa de 50% sobre painéis de madeira brasileiros, substituindo-a por alíquota linear de 10%. A medida restituiu competitividade, mas a valorização do real reduziu o benefício: a receita em dólar cresceu cerca de 2%, porém, convertida para reais, caiu 8,5%.

Para mitigar o câmbio, a Eucatex acelera três frentes:

  1. Lançamento de produtos de maior valor agregado para o mercado norte-americano.
  2. Expansão comercial na América Latina e América Central.
  3. Revisão contínua do mix exportado, priorizando itens com menor elasticidade de preço.

Capex robusto fortalece verticalização e sustentabilidade

O plano de investimentos previsto para 2026 soma R$ 495,2 milhões, cerca de 30% acima de 2025. Entre os principais projetos estão:

  • Modernização da fábrica de portas e aquisição de nova prensa BP de 3 mm, única no Brasil, elevando capacidade e qualidade dos painéis.
  • Implantação de unidade própria de slurry para tintas, reduzindo dependência de fornecedores concentrados e protegendo margens.
  • Expansão florestal, instalação de geradores térmicos e incremento do uso de resíduos de madeira reciclada como biomassa, o que reduz custos e emissões.

A estratégia busca blindar a companhia diante de um ambiente que, na avaliação do CFO, pode combinar quadro fiscal incerto, inflação pressionada e possível arrefecimento da demanda a partir de 2027.

Conclusão Técnica

A Eucatex encerrou o 1T25 com melhora expressiva na rentabilidade, apoiada pelo consumo interno resiliente, estímulos governamentais e antecipação de compras diante da guerra no Irã. O ganho de margem, a redução de alavancagem e o nível de caixa conferem fôlego para o ciclo de investimentos de quase meio bilhão de reais programado para 2026. Entretanto, a valorização do real, a incerteza fiscal doméstica e a expectativa de menor tração da demanda obrigam a companhia a reforçar diferenciação de produto, verticalização de insumos críticos e diversificação geográfica para sustentar resultados nos próximos trimestres.