Will Page, ex-economista-chefe do Spotify, afirmou nesta terça-feira (19/05/2026), durante a conferência Latin Rio, que a música brasileira precisa de um “passaporte” — um plano estruturado de exportação envolvendo artistas, gravadoras, plataformas, festivais e políticas públicas — para converter seu enorme êxito doméstico em presença global sustentável.
Força doméstica versus alcance internacional
A avaliação de Page parte de um contraste numérico: apesar de o Brasil responder por mais de 215 milhões de habitantes e ocupar consistentemente posições altas em rankings de consumo de streaming, o país ainda exporta volume modesto de repertório em comparação a vizinhos de língua espanhola. Segundo o economista, o streaming abriu “a porta de descoberta”, mas não garante por si só a consolidação de carreira fora do território nacional.
No Latin Rio, evento que reúne executivos entre 18 e 20 de maio, Page destacou que “show business são duas palavras” e que não há business sem a etapa presencial. Ele lembrou que hoje um ingresso de grande festival pode custar três vezes o valor anual de uma assinatura de streaming, deslocando a principal fonte de receita do fonograma para o palco.
Diagnóstico de gargalos
O ex-executivo indica três entraves principais para a internacionalização do repertório brasileiro:
1. Coordenação setorial insuficiente – Artistas, editoras, produtoras e governo atuam, em muitos casos, de forma fragmentada, dificultando a formação de rotas de turnês e campanhas conjuntas.
2. Uso genérico de dados – Para Page, perguntar se um artista “é grande na Alemanha” é menos eficaz do que mapear onde existe público real, cidade a cidade. Plataformas já oferecem essas leituras, mas elas ainda são pouco exploradas para planejamento logístico.
3. Barreiras linguísticas percebidas – O português, embora parte do diferencial cultural, pode limitar alcance quando não há ferramentas de tradução, legendagem ou mediação tecnológica que aproximem novos ouvintes da densidade lírica brasileira.
Método de expansão: lições internacionais
Page cita quatro nações que hoje registram superávit na balança comercial da música — Estados Unidos, Reino Unido, Suécia e Coreia do Sul. O common denominator, segundo ele, não é estética sonora, mas sim estruturas de financiamento, agências de exportação e convergência entre setor privado e políticas públicas.
No caso coreano, o chamado K-pop playbook articula treinamento, investimento em videoclipes, legendagem multilíngue e parcerias estratégicas com plataformas. O México e a Colômbia, por sua vez, reforçam a capilaridade de artistas de reggaeton mediante calendário internacional contínuo. “A lição está no método, não no som”, sintetizou Page.
Imagem: Internet
Para o Brasil, o economista defende um modelo de incentivo escalonado: se um artista comprova dez datas confirmadas na Europa, poderia receber apoio governamental para ampliar o circuito, diluindo riscos e aumentando a probabilidade de retorno financeiro.
Perspectivas econômicas do “passaporte” brasileiro
O relatório apresentado por Page durante o painel estima que, se o Brasil atingir crescimento anual de 15 % nas receitas de turnês internacionais nos próximos cinco anos, poderá movimentar adicional de US$ 250 milhões em divisas — valor que colocaria o país no radar dos principais exportadores globais.
O cenário base considera:
• Implementação de escritório de exportação cultural integrado às agências de fomento existentes;
• Programa de dados por cidade, cruzando métricas de streaming, vendas de ingressos e social media;
• Parcerias com aeroportos e companhias aéreas para redução de custos logísticos em turnês.
Conclusão técnica
A análise de Will Page sinaliza que o Brasil detém capital cultural robusto, porém sub-alavancado no exterior. O “passaporte” proposto não requer mudança de idioma ou adoção de outras matrizes sonoras; exige, antes, infraestrutura de exportação, governança colaborativa e uso avançado de inteligência de mercado por localidade. Caso as recomendações avancem, o setor deve acompanhar a expansão de receita em eventos ao vivo, o fortalecimento de parcerias internacionais e a elevação do Brasil a polo exportador de música até o próximo ciclo quinquenal.




