Spreads de títulos corporativos de primeira linha voltaram a recuar nas últimas três semanas, segundo o Bradesco BBI, indicando que o patamar de estresse observado entre março e abril perdeu força e abre espaço para maior normalização do mercado de crédito privado.
Dinâmica recente dos spreads e fatores de pressão
Entre março e abril, o mercado doméstico de renda fixa viu os spreads dos papéis corporativos se ampliarem de forma expressiva. O indicador secundário para títulos Triple A atrelados ao CDI chegou a tocar 0,95 p.p., nível considerado elevado para emissores de alta qualidade. De acordo com Felipe Thut, diretor do Bradesco BBI, a abertura não refletiu uma crise global de liquidez, mas sim um processo doméstico de reprecificação de risco, catalisado por sucessivos eventos de crédito no setor corporativo brasileiro.
No fim de abril, fundos de renda fixa registraram resgates bilionários e investidores passaram a exigir prêmios mais altos para carregar risco privado. O movimento, contudo, começou a se inverter nas últimas três semanas. O spread de referência recuou para cerca de 0,75 p.p., apontando para uma recuperação gradual da confiança — ainda que seletiva e distante da euforia observada em ciclos anteriores.
Saúde financeira das empresas e risco de liquidez
O Bradesco BBI avalia que a atual condição das companhias de capital aberto está longe de um quadro clássico de overleverage. A alavancagem média, medida pela relação dívida líquida/Ebitda, subiu de 1,9 x em 2022 para cerca de 2,5 x em 2026, mas ainda é considerada administrável. O ponto de atenção reside no custo de carregamento da dívida em um ambiente de Selic elevada por período prolongado.
Um dos maiores receios dos investidores segue sendo a ocorrência de novas recuperações judiciais inesperadas que possam travar liquidez e provocar reabertura dos spreads. Para Thut, entretanto, o radar atual não aponta “grandes bombas” entre empresas de maior porte. Casos recentes apresentavam sinais prévios de deterioração operacional e foram absorvidos rapidamente pelo mercado, sem evoluir para crise estrutural.
No front de vencimentos, o calendário é visto como relativamente confortável. Há baixa concentração de pagamentos em 2026–2027, com maior volume apenas a partir de 2029. Muitas companhias aproveitaram o período de spreads comprimidos entre 2024 e 2025 para alongar dívidas, reduzindo a pressão de curto prazo sobre caixa.
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Reposicionamento estratégico do Bradesco BBI e apetite externo
Com a desaceleração das emissões tradicionais de debêntures durante o pico de estresse, o Bradesco BBI acelerou operações em Finanças Estruturadas. A área passou a ofertar soluções como captações em holdings, cessão de recebíveis e estruturas off-balance. O reforço na estratégia elevou o market share do banco de 14 % em 2023 para 21,4 % em abril de 2026, patamar considerado pelo executivo como condizente com o tamanho da instituição.
No mercado internacional, o apetite por bonds de emissores brasileiros de alta qualidade permanece resiliente, mesmo diante do rendimento historicamente elevado das Treasurys. O Bradesco BBI projeta que as emissões externas de empresas nacionais devem somar entre US$ 30 bi e US$ 35 bi em 2026, contribuindo para a diversificação das fontes de financiamento corporativo.
Conclusão Técnica
Os dados mais recentes indicam que o ponto máximo de estresse no crédito privado doméstico ocorreu no bimestre março-abril. O recuo subsequente dos spreads para a faixa de 0,75 p.p. sugere recomposição parcial da confiança, sem sinais de crise sistêmica de liquidez. A alavancagem empresarial, embora maior, continua sob controle, e o cronograma de vencimentos aponta folga antes de 2029. A continuidade desse processo dependerá, sobretudo, da trajetória da Selic e da ausência de novos eventos de crédito de grande porte. Diante desse pano de fundo, o Bradesco BBI mantém a expectativa de fechamento gradual dos spreads ao longo do segundo semestre, acompanhado por maior atividade em soluções estruturadas e emissões externas de companhias High Grade.




