Gestores moderam apetite por risco e elegem Espanha como favorita à Copa, mostra pesquisa global do BofA

A edição de junho da Global Fund Manager Survey do Bank of America, realizada entre 5 e 11 de junho com 198 gestores que administram US$ 540 bilhões, aponta elevação da posição em caixa para 4,1%, redução em ações de tecnologia e eleição da Espanha como principal candidata ao título da Copa do Mundo de 2026.

Sinais de cautela: mais caixa e menor exposição a ações

O levantamento indica que, apesar do bull market persistente, o otimismo perdeu intensidade. A alocação média em caixa subiu de 3,9% para 4,1%, movimento normalmente interpretado como proteção contra volatilidade. Paralelamente, a posição líquida em ações globais recuou de 50% para 38%, enquanto a exposição a big techs caiu de 33% para 26%, ainda acima da média histórica.

A pesquisa também revela a maior sobrealocação já registrada em fabricantes globais de semicondutores, citada por 80% dos participantes como a operação mais congestionada no mercado. Em contrapartida, segmentos tradicionais da Europa seguem fora do foco: a região atingiu o menor patamar de participação desde dezembro de 2024.

No mercado de câmbio, o pessimismo com o dólar arrefeceu. A posição líquida abaixo da referência desceu para 3%, menor nível desde março de 2025. Apenas 34% dos respondentes consideram a moeda norte-americana sobrevalorizada, contra 50% no mês anterior.

Cenários macroeconômicos e riscos monitorados

A parcela líquida de gestores que espera desaceleração econômica nos próximos 12 meses despencou para 1%, ante 14% em maio. Ainda assim, 58% projetam estagflação — crescimento fraco combinado a inflação elevada. O grupo que prevê expansão acompanhada de preços altos subiu para 36%.

Embora a expectativa de inflação global em 12 meses tenha caído de 66% para 45%, o número de entrevistados que aguardam novas altas de juros saltou para 40%, maior porcentual desde setembro de 2022. Sobre a reunião do Federal Reserve desta semana, 55% antecipam manutenção da política restritiva.

A inflação continua o principal risco de cauda, apontada por 34% dos gestores. No entanto, a possibilidade de uma bolha em empresas de inteligência artificial ganhou relevância e já preocupa 28% dos participantes, ante 5% dois meses antes. Conflitos geopolíticos perderam força, caindo para 12% das menções depois de terem alcançado 44% recentemente.

Mudança de rota setorial e apostas contrárias

O estudo evidencia rotação para setores defensivos. Investimentos em bancos, materiais básicos e ações japonesas aumentaram, enquanto consumo discricionário, consumo básico e seguradoras seguem sub-alocados.

Quanto às operações contrárias ao consenso, títulos de renda fixa, ações europeias, empresas de consumo e fundos imobiliários despontam como potenciais oportunidades. Já posições compradas em commodities, semicondutores, materiais básicos e bancos foram classificadas como menos atrativas neste momento.

No mercado de metais, a percepção sobre o ouro mudou: apenas 1% consideram o ativo sobrevalorizado, menor marca desde fevereiro de 2024, indicando visão de preço justo.

Copa do Mundo: percepção dos gestores

Fora do escopo financeiro, a pesquisa incluiu o tradicional “bolão” da Copa. A Espanha lidera com 22% das preferências, seguida pela França (19%). Brasil, Argentina e Inglaterra aparecem empatados com 8% cada, enquanto Portugal soma 6% e Alemanha 3%.

As respostas reforçam o perfil diversificado dos entrevistados: mesmo focados em variáveis macro e microeconômicas, os participantes exibem interesse em projeções esportivas, visto que os grandes eventos podem influenciar fluxos de capital e sentimento de risco em determinados mercados.

Conclusão técnica

A leitura de junho demonstra que os gestores globais mantêm viés construtivo, mas elevam proteções à medida que valuations se estendem e riscos de inflação persistem. O aumento do caixa, a rotação setorial para posições defensivas e a atenção à possível bolha em IA indicam preparação para volatilidade no segundo semestre. Os dados sugerem monitoramento contínuo da política monetária norte-americana e da trajetória de preços ao consumidor como vetores determinantes para a próxima etapa de alocação global.