Grupo Toky solicita recuperação judicial e ações despencam quase 40%

Grupo Toky (TOKY3) ingressou com pedido de recuperação judicial em 12 de maio de 2026, apresentando passivo de R$ 1,11 bilhão; o processo tramita na Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, sob segredo, após sucessivas tentativas de reestruturação financeira que falharam em conter o colapso de liquidez da controladora de Mobly e Tok&Stok.

Impacto imediato no mercado de capitais

Horas depois da protocolização do pedido, as ações TOKY3 registraram retração de 37,93 %, chegando a superar 40 % de queda intradiária e sendo negociadas a R$ 0,18. O recuo acentuado reflete:

  • Incerteza dos investidores quanto à execução do plano de recuperação;
  • Temor de diluição patrimonial em eventuais emissões de novos títulos ou conversões de dívida em capital;
  • Restrição de liquidez agravada pela suspensão de recebíveis de cartão de crédito, bloqueados pelo SRM Bank no valor de R$ 77 milhões.

Com capital aberto desde 2021 (então sob o código MBLY3), o grupo conta atualmente com 63 lojas físicas, 2.278 colaboradores e free float pulverizado, no qual se destacam fundos de private equity que converteram dívidas em participação acionária.

Cronologia das crises e reestruturações

A trajetória recente do conglomerado expõe um ciclo de endividamento crescente e medidas emergenciais:

  1. 2023Tok&Stok reestrutura R$ 339 milhões em dívidas bancárias, após encerrar 17 unidades durante a pandemia.
  2. 2024 – Pedido de recuperação extrajudicial para alongar passivos financeiros por meio da emissão de debêntures.
  3. 2024Mobly, capitalizada via aumento de capital, compra a varejista e forma o Grupo Toky, alterando o ticker para TOKY3.
  4. 2025 – Conflito societário: família Dubrule tenta retomar controle por OPA com preço abaixo do valor de mercado, gerando prejuízo operacional de R$ 41,6 milhões em um trimestre.
  5. 2026 – Prorrogação do pagamento de debêntures para junho, sem aliviar a pressão de caixa, culminando no pedido judicial atual.

Estrutura da dívida e riscos operacionais

A petição informa passivo consolidado de R$ 1,11 bilhão, distribuído entre:

  • Debêntures: R$ 565 milhões (vencimento renegociado para jun/2026);
  • Empréstimos bancários: R$ 352 milhões;
  • Fornecedores e prestadores de serviço: R$ 143 milhões;
  • Obrigações trabalhistas e tributárias: R$ 50 milhões.

O bloqueio de recebíveis citado pela companhia é apontado como gatilho para “estrangulamento financeiro em curtíssimo prazo”, podendo interromper o fluxo de mercadorias aos centros de distribuição e comprometer o abastecimento das lojas.

Além do passivo financeiro, o grupo enfrenta desafios operacionais típicos do setor de móveis e decoração:

  • Ciclo de caixa longo, dado o prazo médio de fabricação e entrega;
  • Exposição a custos logísticos elevados e variação cambial nos insumos;
  • Concorrência acirrada de plataformas digitais nativas e de players internacionais.

Movimentações societárias e governança

Os principais acionistas institucionais sofreram mudanças recentes:

  • SPX Private Equity – detentor de 11,49 %, em tratativas avançadas para alienação total da posição; conselheiro ligado ao fundo, Fernando Porfirio Borges, apresentou renúncia.
  • Domus Aurea – consultoria de tecnologia que converteu crédito em 5,48 % do capital, após litígio de R$ 3,8 milhões.
  • Home 24 – antigo investidor-âncora da Mobly, vendeu participação restante de 42,75 % em julho de 2025.

O conselho de administração, afetado por sucessivas saídas de representantes de fundos, deverá ser recomposto conforme as exigências legais de governança durante o período de proteção judicial.

Conclusão Técnica

O pedido de recuperação judicial do Grupo Toky consolida um processo de deterioração financeira iniciado ainda na pandemia e agravado por conflitos societários, dívidas concentradas e bloqueio de recebíveis. A fase inicial do procedimento prevê:

  • Apresentação de plano detalhado de reestruturação em até 60 dias;
  • Suspensão de execuções por 180 dias, permitindo negociação coletiva com credores;
  • Possibilidade de capitalização emergencial por meio de investidores estratégicos ou conversão adicional de dívidas em ações.

Enquanto aguarda homologação judicial, a companhia precisa assegurar fornecimento, manutenção de empregos e preservação de valor de mercado. O desfecho dependerá da adesão dos credores ao plano, da estabilidade da governança e da eficácia das medidas de liquidez adotadas para sustentar as operações.