Guia Michelin confirmou nesta semana, 20 de maio de 2026, o encerramento definitivo da Estrela Verde, distinção criada para reconhecer práticas ambientais na gastronomia; em seu lugar, nasce a iniciativa Mindful Voices, que entrará em vigor em 1º de junho durante a cerimônia nórdica do guia, ampliando o foco para hotelaria e vinhos.
Descontinuação oficial da Estrela Verde
Rumores sobre o fim da Estrela Verde circularam por sete meses, impulsionados por relatos de inspetores e a ausência do selo em plataformas digitais do guia. O posicionamento definitivo veio por meio de nota pública no site do Guia Michelin, encerrando a distinção lançada em 2020 e já atribuída a mais de 500 restaurantes em 45 países. O diretor internacional, Gwendal Poullennec, justificou a decisão como parte de uma “evolução natural” das premiações voltadas à sustentabilidade, argumentando que o escopo restrito a restaurantes não refletia mais a complexidade das cadeias de abastecimento nem o intercâmbio entre gastronomia, hotelaria e viticultura.
A Estrela Verde surgira no auge das discussões sobre pegada de carbono na alta cozinha. Seus critérios incluíam rastreabilidade de insumos, gestão de resíduos e compromisso público com metas climáticas. Apesar da receptividade inicial, analistas observaram lacunas na padronização das auditorias e na comparabilidade dos indicadores — pontos que, segundo o comunicado, serão endereçados no novo formato.
Mindful Voices: novos parâmetros de reconhecimento
Mindful Voices amplia o horizonte de avaliação para três pilares: gastronomia, hotelaria e vinho. A ferramenta prevê estudos de caso em profundidade, visitas técnicas e publicação de relatórios anuais com métricas transparentes — densidade energética, eficiência hídrica e inovação circular, entre outras. A primeira edição ocorrerá durante o anúncio do Guia Michelin Países Nórdicos 2026 em Copenhague. O projeto também contempla séries editoriais e mesas-redondas regionais, aproximando chefs, enólogos, hoteleiros e pesquisadores.
Em paralelo, o guia mantém as tradicionais Estrelas Vermelhas para excelência culinária, bem como as recém-criadas Chaves Michelin (hotelaria) e Uvas Michelin (vinhos). A convergência entre esses selos formará um painel integrado de boas práticas que, segundo a organização, “reescreve as regras” da hospitalidade global.
Repercussão entre restaurantes brasileiros premiados
Três casas brasileiras agraciadas com a Estrela Verde manifestaram-se favoravelmente à alteração. No Corrutela, o chef Renato Mello avaliou que a substituição representa “uma evolução” e reafirmou o compromisso do restaurante com compostagem orgânica, energia solar e cadeias curtas de fornecimento. O estabelecimento mantém meta de servir 95 % de ingredientes provenientes de produtores certificados até 2027.
Imagem: Internet
O Tuju, portador de três Estrelas Vermelhas e uma Estrela Verde, destacou a possibilidade de maior visibilidade a produtores rurais parceiros. Sua diretora de pesquisa, Katherina Cordás, frisou que o novo formato “democratiza o reconhecimento” ao contemplar profissionais além dos chefs. Já A Casa do Porco, outra laureada, emitiu nota apoiando “qualquer iniciativa que alinhe alta gastronomia à responsabilidade socioambiental”.
Contexto do mercado de premiações e tendências sustentáveis
O desligamento da Estrela Verde ocorre num cenário em que políticas ESG passam por revisão em múltiplos setores. Índices financeiros internacionais vêm ajustando pesos relativos de governança e impacto social, enquanto selos de certificação redefinem critérios para evitar a acusação de greenwashing. No universo da restauração, relatórios da organização Food Made Good indicam que 72 % dos consumidores globais consideram sustentabilidade fator decisivo na escolha de restaurantes, porém apenas 31 % confiam plenamente nas certificações existentes.
Analistas especializados como Nicholas Gill já apontavam para um “desaparecimento silencioso” da Estrela Verde desde o segundo semestre de 2025, destacando inconsistências regionais. A resposta do Guia Michelin à época limitou-se a informar atualizações de plataforma. A confirmação atual, portanto, alinha a premiação a uma tendência de sistemas modulares, nos quais categorias são integradas a painéis de impacto mais amplos.
Conclusão Técnica
Com a extinção da Estrela Verde e a implantação do Mindful Voices, o Guia Michelin sinaliza a transição de um selo isolado para uma abordagem multissetorial baseada em métricas padronizadas. A estreia oficial programada para 1º de junho servirá de teste para o novo modelo, que deverá ser expandido gradativamente a outras regiões a partir do segundo semestre de 2026. Restaurantes que já possuíam a distinção verde permanecem listados nos arquivos históricos, mas serão avaliados pelos novos critérios nas próximas revisões. Profissionais do setor devem monitorar a publicação do primeiro relatório anual do Mindful Voices, previsto para março de 2027, que detalhará benchmarks operacionais e poderá influenciar investimentos em infraestrutura sustentável em toda a cadeia de hospitalidade.



