Ibovespa em queda pela 6ª semana: pior sequência desde 2018, Minerva puxa o lado negativo

O Ibovespa acumulou recuo de 0,61% entre 18 e 22 de maio, fechando aos 176.209,61 pontos e registrando a sexta semana consecutiva de perdas — a pior série desde 2018 — em meio à incerteza sobre as negociações entre Estados Unidos e Irã, à pressão inflacionária global e ao aumento da cautela política no Brasil.

Fatores externos: petróleo acima de US$ 100 reforça aversão a risco

As discussões diplomáticas entre Washington e Teerã seguiram sem acordo concreto, sustentando o barril do Brent próximo de US$ 110. Esse patamar eleva expectativas de inflação nas principais economias e fortalece apostas de juros elevados por período prolongado.

No fim da semana, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reconheceu “progresso limitado”, enquanto o porta-voz iraniano Esmaeil Baghaei apontou “divergências profundas”. A ausência de um cessar-fogo manteve a volatilidade das commodities energéticas e contaminou ativos de maior risco, inclusive os emergentes.

Nos Estados Unidos, parte do mercado já precifica nova elevação de juros pelo Federal Reserve em outubro. A mudança de comando no banco central norte-americano — com Kevin Warsh assumindo a presidência e Jerome Powell permanecendo no conselho — adicionou incerteza sobre a condução da política monetária.

Cenário político e fiscal brasileiro amplia cautela

Investidores monitoraram o desdobramento do vazamento de mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. A pesquisa Datafolha divulgada em 22 de maio mostrou o presidente Lula ampliando a vantagem no primeiro turno de 38% para 40%, enquanto o senador recuou de 35% para 31%. No segundo turno, a margem passou a 47% contra 43%, ainda em empate técnico.

Paralelamente, o governo anunciou bloqueio adicional de R$ 22,1 bilhões em despesas discricionárias, elevando o contingenciamento total para R$ 23,7 bilhões. A medida busca cumprir o limite de gastos, mas acendeu alerta sobre a execução orçamentária de ministérios e programas federais.

No câmbio, o dólar à vista encerrou a semana cotado a R$ 5,028, queda de 0,78%, reflexo de fluxos pontuais e da percepção de que os juros domésticos permanecerão em patamar elevado por mais tempo.

Destaques de desempenho: Usiminas lidera ganhos; Minerva sofre rebaixamento

No lado positivo do índice, Usiminas (USIM5) avançou 13,49% após reportar lucro líquido de R$ 896 milhões no 1T26, salto de 166% em 12 meses. Bancos destacaram redução de custos de produção, melhora cambial e créditos tributários, incentivando revisões altistas de preço-alvo.

Outros papéis que figuraram entre as maiores altas foram Lojas Renner (LREN3), Azzas 2154 (AZZA3) e CSN (CSNA3), beneficiados por relatórios setoriais e menor pressão vendedora.

Na ponta negativa, Minerva (BEEF3) recuou 14,09% e liderou as perdas. Em 20 de maio, o Itaú BBA cortou o preço-alvo de R$ 9,00 para R$ 5,50 e rebaixou a recomendação para neutra, citando cenário operacional mais difícil, risco de alta de custos pecuários e visibilidade limitada de catalisadores. A suspensão chinesa à importação de carne de três frigoríficos brasileiros — embora não tenha incluído a companhia — intensificou a aversão ao setor.

Entre as demais quedas expressivas apareceram Raia Drogasil (RADL3) com -7,15% e SLC Agrícola (SLCE3) com -6,52%, refletindo preocupações sobre margens e demanda.

Perspectivas: juros, commodities e agenda política no radar

Nas próximas semanas, o foco permanece em três frentes. Primeiro, a trajetória das commodities energéticas: caso o Brent se mantenha acima de US$ 100, a inflação implícita pode pressionar decisões de política monetária dentro e fora do Brasil.

Segundo, a agenda de Brasília. A divulgação de novos levantamentos eleitorais e eventuais evoluções no caso Banco Master tendem a influenciar o humor dos investidores, sobretudo pela possível repercussão sobre o apoio parlamentar a pautas econômicas.

Terceiro, a temporada de resultados corporativos do segundo trimestre, cuja prévia de pedidos e custos será determinante para revisar projeções de lucro em 2026.

Conclusão técnica

Com seis semanas seguidas de retração, o Ibovespa iguala a marca negativa de 2018, ancorado por pressões externas — notadamente a elevação do petróleo — e por incertezas político-fiscais domésticas. Enquanto empresas exportadoras de aço e varejistas selecionadas resistem, frigoríficos e companhias expostas a custos de logística exibem deterioração nas estimativas. Mantidas as variáveis iniciais, a tendência de curto prazo seguirá dependente de avanços nas negociações EUA-Irã, da sinalização de política monetária do Federal Reserve e da definição do espaço fiscal brasileiro até a publicação do próximo relatório bimestral de receitas e despesas.