Inadimplência pressiona PicPay em Nova York e faz papéis caírem até 17% após balanço do 1T26

As ações PICS do PicPay recuaram até 17% na manhã de 3 de junho em Wall Street após a divulgação do resultado do primeiro trimestre de 2026, quando o mercado concentrou a atenção no avanço da inadimplência, apesar do salto de 92 % no lucro líquido ajustado.

Lucro e receita avançam acima do setor, mas índice de atraso supera 8 %

No 1T26, o PicPay reportou lucro líquido ajustado de R$ 169 milhões, quase o dobro do registrado um ano antes. A receita líquida atingiu R$ 3,5 bilhões, expansão de 70 % na comparação anual, ancorada na carteira de crédito que superou R$ 28 bilhões. O ritmo de concessões, no entanto, elevou o NPL 90+ — indicador de créditos com atraso superior a 90 dias — para 8,9 %, alta de 1,69 ponto percentual frente ao trimestre anterior.

Esse incremento sinaliza maior risco de perda e contribuiu para a leitura cautelosa dos investidores. Enquanto o desempenho operacional reforça a capacidade de expansão da fintech, a qualidade dos ativos tornou-se o ponto focal de análise.

Reação dos bancos de investimento expõe dilema entre crescimento e risco

Relatórios publicados por casas globais destacaram fatores distintos. O BTG Pactual classificou o resultado como “misto”, citando que a inadimplência veio ligeiramente acima das projeções internas. Segundo o banco, uma reprecificação consistente dos papéis depende de evidências de estabilização no indicador de risco. Mesmo assim, o múltiplo de ≈7,8 x o lucro projetado para 2026 foi considerado atrativo para manter recomendação de compra.

Por sua vez, o Citi avaliou o balanço de forma mais construtiva, atribuindo o aumento do atraso a fatores técnicos de maturação da carteira. A instituição ressaltou a margem financeira de 16 % e ganhos de eficiência operacional, elementos que mitigarariam, a seu ver, parte das preocupações com qualidade de crédito.

No pregão de Nova York, entretanto, prevaleceu a cautela. Às 12h15 (horário local), PICS caía 13,61 %, a US$ 9,65, após tocar mínima de US$ 9,23. O volume negociado superava a média dos últimos 30 dias, indicando realocação de posições em meio à incerteza sobre risco de crédito.

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Gestão adota portfólio mais defensivo e projeta lucros maiores no 2T26

Em teleconferência, executivos reafirmaram a estratégia de maximizar retorno ajustado ao risco, não apenas reduzir índices de atraso. Atualmente, 54 % da carteira concentra-se em linhas com garantia, como crédito consignado privado e antecipação do FGTS, consideradas menos voláteis em cenários adversos.

A companhia também enfatizou ganhos de produtividade decorrentes da adoção de inteligência artificial em processos de atendimento, recurso que teria evitado a contratação de cerca de 3 000 funcionários e contribuído para a queda do índice de eficiência ajustado de 62 % para 47 % em doze meses.

Para o segundo trimestre, o guidance indica lucro líquido ajustado de R$ 245 milhões, aproximadamente 9 % acima do consenso de mercado. A administração sustenta que a inadimplência ainda pode avançar marginalmente antes de convergir para patamares estáveis, mas projeta melhora gradativa na cobertura de provisões.

Conclusão Técnica

O recuo expressivo das ações após o balanço reflete a tensão entre crescimento acelerado e administração de risco de crédito. Enquanto indicadores de rentabilidade, receita e eficiência mostram trajetória ascendente, o NPL 90+ de 8,9 % mantém a percepção de vulnerabilidade. A materialização do guidance de R$ 245 milhões no 2T26, acompanhada de estabilidade — ou desaceleração — da inadimplência, será determinante para redefinir a precificação do ativo e a confiança do mercado nos próximos ciclos de resultado.