Inflação persistente, petróleo em alta e tensão no Oriente Médio derrubam Ibovespa e seguram dólar em R$ 4,89

A combinação de inflação elevada, disparada do petróleo e agravamento das tensões geopolíticas levou o Ibovespa a recuar 0,86% nesta terça-feira (12) para 180.342,33 pontos, enquanto o dólar à vista encerrou praticamente estável a R$ 4,8954, refletindo cautela global e decepção com o resultado trimestral da Petrobras.

Pressão externa: petróleo avança mais de 3% com risco no Estreito de Ormuz

O mercado internacional de energia voltou a precificar um prêmio de risco elevado após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que qualificou como “incrivelmente frágil” o cessar-fogo proposto pelo Irã. A ameaça a uma das principais rotas marítimas do planeta, o Estreito de Ormuz, sustentou o avanço do Brent para US$ 107,77 (+3,41%) e do WTI para US$ 102,18 (+4,19%).

Além da retórica norte-americana, um oficial da Marinha da Guarda Revolucionária Iraniana indicou a ampliação da área de atuação militar na região, fator que reforçou o temor de interrupções no fluxo diário de aproximadamente 21 milhões de barris. Esse cenário provocou fuga de ativos de risco, pressionando bolsas emergentes e fortalecendo o índice DXY, que subiu 0,34%, aos 98.289 pontos.

Reflexos corporativos: balanço da Petrobras amplia perdas no índice

Mesmo com a valorização da commodity, as ações da Petrobras recuaram após a divulgação do resultado do 1T26. Os papéis ordinários (PETR3) caíram 1,20% e os preferenciais (PETR4) 1,46%. Relatório do Bradesco BBI atribuiu o desempenho abaixo da expectativa a um descompasso entre a precificação das exportações e os estoques em trânsito, que comprimiu margens no trimestre.

Com peso superior a 10% na composição do Ibovespa, a estatal isolou cerca de 1.200 pontos do indicador, segundo cálculos de corretoras. Empresas expostas a combustíveis, logística e aviação igualmente recuaram, absorvendo o impacto do combustível mais caro e das revisões de custos estratégicos.

Inflação no Brasil e nos EUA redefine projeções de política monetária

No âmbito doméstico, o IPCA de abril avançou 0,67%, desacelerando ante março (0,88%), mas elevando o acumulado em 12 meses de 4,14% para 4,39%, patamar próximo do teto da meta de 4,5%. Para a economista Claudia Moreno, do C6 Bank, medidas de subsídio e renúncia fiscal podem suavizar parte da pressão, porém combustível e alimentos já capturam o choque externo.

No mesmo dia, o CPI norte-americano mostrou alta mensal de 0,6% e núcleo em 0,4%, levando a inflação anualizada a 3,8%. A ferramenta FedWatch, do CME Group, passou a precificar 97,6% de probabilidade de manutenção dos Fed Funds entre 3,50% e 3,75% ao ano em junho, com parte do mercado considerando novas altas a partir de março de 2027.

Panorama global: Wall Street oscila, Europa recua e Ásia fecha mista

Em Nova York, a alta de energia foi contrabalançada pela realização de lucros em tecnologia. O Dow Jones subiu 0,11%, mas o S&P 500 caiu 0,16% e a Nasdaq recuou 0,71%. Na Europa, o STOXX 600 perdeu 1,01%, pressionado também pela crise política no Reino Unido. Na Ásia, o Nikkei 225 avançou 0,52%, enquanto o Hang Seng cedeu 0,22%, refletindo preocupações distintas sobre cadeias de suprimentos e demanda chinesa.

Com menor apetite global por risco, o fluxo estrangeiro na B3 permaneceu modesto e concentrou-se em operações defensivas de câmbio futuro, sustentando o dólar próximo ao patamar de R$ 4,90.

Conclusão técnica

O recuo do Ibovespa foi resultado direto da confluência entre pressões inflacionárias, valorização do petróleo e deterioração geopolítica, fatores que elevam a aversão ao risco e inibem o ingresso de capital estrangeiro. A estabilidade do dólar, por sua vez, indica atuação equilibrada entre proteção e giro financeiro. Para as próximas sessões, agentes acompanharão: 1) evolução do conflito no Oriente Médio e possível reabertura do Estreito de Ormuz; 2) sinalizações do Federal Reserve sobre trajetória dos juros; 3) divulgação de balanços corporativos domésticos, em especial de setores sensíveis a combustíveis e câmbio. A manutenção do IPCA próxima do teto da meta reforça a perspectiva de política monetária conservadora no Brasil e mantém a bolsa suscetível a oscilações derivadas do cenário externo.