Inter e Nubank enfrentam teste de qualidade no 1T26: lucro combinado pode superar R$ 5 bi, mas risco de crédito e despesas ganham foco

Inter divulga resultados em 7 de maio e Nubank em 14 de maio; projeções apontam lucro líquido de R$ 401 milhões e US$ 879 milhões, respectivamente, mas analistas monitoram impacto do crédito consignado privado no Inter e o aumento de despesas tecnológicas e de expansão internacional no Nubank.

Calendário, expectativas e métricas-chave de rentabilidade

O primeiro trimestre de 2026 marca uma etapa decisiva para os dois maiores bancos digitais listados da América Latina. O Inter&Co abrirá a temporada em 7 de maio, antes da abertura do pregão, enquanto o Nubank apresentará seus números em 14 de maio, após o fechamento em Nova York. O mercado espera que ambos confirmem a transição de um modelo sustentado apenas por escala para um estágio em que qualidade do crescimento, eficiência operacional e controle de risco se tornem referências centrais.

Segundo o consenso compilado por grandes casas de análise, o Inter deverá reportar ROE de 15,3 % e margens praticamente estáveis, enquanto o Nubank pode alcançar ROE próximo de 31 %. A avaliação não se limita ao desempenho absoluto: investidores desejam clareza sobre a origem dos ganhos, eventuais concessões em política de crédito e a trajetória de despesas em tecnologia, marketing e expansão geográfica.

Inter: avanço do consignado privado amplia carteira, mas pressiona custo de risco

Dentro do planejamento conhecido como 60-30-3060 milhões de clientes, 30 % de índice de eficiência e 30 % de ROE até o fim de 2027 — o Inter segue priorizando crescimento acelerado da carteira, estimado em cerca de 30 % ao ano. O vetor principal é o consignado privado, que se sobrepõe a linhas tradicionais como financiamento imobiliário e home equity.

Entretanto, relatórios de UBS BB, JP Morgan e Goldman Sachs convergem para a mesma leitura: o banco antecipa provisões mais robustas para sustentar a estratégia, adicionando pressão ao custo de risco e limitando a expansão da margem financeira risk-adjusted. De acordo com o JP Morgan, “o lucro deve ficar ligeiramente abaixo do consenso, refletindo combinação de margem estável e aumento do custo de crédito”. Já o Goldman alerta para sinais iniciais de deterioração na inadimplência de cartões, efeito que pode ser intensificado pela sazonalidade do funding.

Apesar desse cenário, o Bank of America ressalta que o pilar eficiência permanece de pé. Investimentos contínuos em automação, canal único (super-app) e otimização de data centers mantêm o índice de eficiência em trajetória descendente, sinalizando que o banco ainda tem espaço para sustentar crescimento de lucro mesmo com provisões elevadas.

Nubank: ciclo de investimento reforça despesas, mas ROE de 30 % ancora confiança

O Nubank encerrou 2025 com margens consolidadas em patamar considerado maduro para fintechs. Para 2026, as projeções indicam expansão da receita de crédito entre 25 % e 43 % ao ano e manutenção de ROE superior a 30 %, conforme relatório do Goldman Sachs. O principal motor continua sendo o cartão de crédito, cuja penetração em clientes core cresce com limites maiores baseados em modelos avançados de análise de risco.

Embora a rentabilidade permaneça elevada, o JPMorgan identifica um “ano de investimentos”, com tendência de eficiência mais lateral. Os gastos previstos incluem expansão no México e em outros mercados da América Latina, reforço em infraestrutura tecnológica, campanhas de marketing para consolidar a marca global e custos de retorno ao trabalho presencial. Além disso, o BofA destaca a ausência de efeitos extraordinários que beneficiaram trimestres anteriores, projetando despesas operacionais acima da média histórica.

Do lado tributário, analistas do UBS BB observam possibilidade de alíquota efetiva estruturalmente menor, criando gatilhos para surpresas positivas recorrentes no lucro. Esse efeito pode mitigar parte das pressões de despesa e sustentar margens mesmo em fase de investimentos pesados.

Comparativo de riscos e potenciais catalisadores

Ao confrontar os dois balanços, casas de análise ponderam variáveis distintas. Para o Inter, a preocupação central é a relação entre crescimento de carteira e custo de risco; no Nubank, as atenções se voltam a dinâmica de despesas versus preservação de margens. Ambos, contudo, compartilham desafios semelhantes: monitoramento de inadimplência em cartões, volatilidade macroeconômica regional e impacto de decisões regulatórias sobre limites de crédito e capital.

Entre gatilhos positivos, analistas citam eventual melhora na percepção de risco soberano, que reduziria o custo de captação, além de ganhos de escala adicionais em pagamentos instantâneos e serviços de investimento. No cenário adverso, possíveis choques de inflação ou aperto monetário prolongado poderiam elevar provisões e reduzir a velocidade de concessões.

Conclusão técnica e próximos passos

Os resultados do 1T26 devem indicar se bancos digitais conseguem avançar para uma fase de crescimento menos dependente de volume e mais ancorada em rentabilidade sustentável. O Inter precisa equilibrar expansão agressiva do consignado privado com controle do custo de crédito para sustentar a meta de ROE de 30 % até 2027. Já o Nubank encara o desafio de financiar maior ciclo de investimentos sem comprometer o ROE hoje acima de 30 %.

Nas semanas seguintes à divulgação, o mercado acompanhará revisões de modelos de inadimplência, eventuais ajustes nas metas de eficiência e detalhes sobre políticas de expansão internacional. A confirmação — ou revisão — desses indicadores determinará o ritmo de valorização das ações nos próximos trimestres e poderá redefinir a hierarquia entre as principais plataformas financeiras digitais da região.