Investidor estrangeiro reduz exposição ao Brasil diante de juros altos, corrida por tecnologia e risco político, aponta BofA

Relatório do Bank of America indica que inflação global persistente, atratividade de títulos de países desenvolvidos e incertezas políticas na América Latina levaram à retirada de R$ 8,9 bilhões da bolsa brasileira apenas em maio, revertendo o ciclo de entradas que sustentava o Ibovespa acima de 200 mil pontos.

Pressão inflacionária eleva juros globais e diminui prêmio dos emergentes

O avanço prolongado do conflito no Oriente Médio mantém o petróleo acima de US$ 100 por barril, nível bem superior à expectativa de US$ 60 projetada antes da eclosão da guerra. Segundo o Bank of America, o encarecimento do combustível permeia toda a cadeia de custos e realimenta a inflação nas principais economias.

Para mitigar esse efeito, bancos centrais de países desenvolvidos postergam o afrouxamento monetário. Nos Estados Unidos, o rendimento dos Treasurys de 10 anos subiu de 4 % para 4,6 %. Movimento semelhante ocorre nos títulos soberanos do Reino Unido e da Alemanha. Com o retorno das aplicações consideradas “porto seguro” em níveis historicamente elevados, o diferencial de risco que justificava aportes em mercados emergentes, como o Brasil, encolheu.

No cenário doméstico, o receio de que a inflação resiliente impeça cortes mais profundos na Selic adiciona incerteza. Mesmo uma sequência de reduções moderadas pode se mostrar insuficiente para aliviar o custo de capital das companhias listadas, reduzindo o apelo de novas posições estrangeiras.

Rotação setorial concentra capital em tecnologia e inteligência artificial

O relatório do BofA destaca a “obsessão” dos fundos globais por empresas de tecnologia e IA, concentradas majoritariamente em Estados Unidos e Ásia. A busca por crescimento exponencial nesses segmentos provoca realocação de recursos que antes sustentavam estratégias de “valor” em mercados de commodities.

Como o Ibovespa possui peso relevante em mineradoras e petrolíferas, o índice perdeu participação na corrente de capital que impulsiona companhias inovadoras. Esse desvio de fluxo agravou a saída de estrangeiros, que já retiraram R$ 8,9 bilhões da bolsa brasileira entre 1.º e 18 de maio, contribuindo para a queda do índice de 200 mil para 177 mil pontos em trinta dias.

Para que o movimento se reverta, analistas sugerem duas condições: valorização mais expressiva das ações ligadas a tecnologia no Brasil ou redução dos prêmios exigidos em papéis de commodities. Até o momento, nenhuma das hipóteses se concretizou.

Cenário político latino-americano sustenta prêmio de risco adicional

As projeções eleitorais na região adicionam outra camada de cautela. No Brasil, a possibilidade de reeleição do presidente Lula sinaliza manutenção de políticas fiscais expansionistas, com gastos superiores à arrecadação. Paralelamente, eleições no Peru e na Colômbia podem resultar em administrações alinhadas à esquerda, o que eleva a percepção de intervenção estatal na economia.

Para investidores globais, a combinação de incerteza fiscal e potencial mudança regulatória amplia o prêmio exigido para alocar capital na América Latina. De acordo com o Banco, mesmo após a desvalorização recente, as ações brasileiras “ainda não estão baratas o suficiente” para compensar esses riscos adicionais.

Conclusão Técnica

O diagnóstico do Bank of America converge em três vetores: inflação global sustentada pelo petróleo, reprecificação de ativos diante do avanço da tecnologia e indefinição política regional. Esses fatores reduziram a atratividade relativa do Brasil, provocando a saída líquida de investidores estrangeiros e pressionando o Ibovespa.

Enquanto os juros de países centrais permanecerem elevados e a preferência por ativos de crescimento seguir dominante, a tendência de fluxo limitado ao mercado brasileiro deve persistir. Eventuais gatilhos de reversão incluem recuo consistente da inflação internacional, avanço de reformas fiscais domésticas e inserção de empresas de alto conteúdo tecnológico no índice. Até que pelo menos um desses elementos se materialize, o país tende a permanecer, nas palavras do relatório, “na sala de espera” do capital global.