O grupo LATAM Airlines reduzirá em 3% a capacidade prevista para julho de 2026, repetindo o ajuste já adotado em junho, após a valorização contínua do querosene de aviação (QAV), informou o CEO Roberto Alvo.
Pressão dos combustíveis sobre a operação
O querosene de aviação responde hoje por cerca de 45% do custo operacional das companhias aéreas brasileiras, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR). Desde outubro do ano passado, o petróleo oscila em patamares elevados devido ao recrudescimento do conflito Irã–Israel, movimento que pressiona a cadeia global de refino e, por consequência, o preço do QAV.
No Brasil, a alta já provocou o cancelamento de 2 mil voos em maio e a projeção de outros 2,6 mil para junho, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Ainda assim, o governo federal decidiu estender por mais um mês a isenção do imposto sobre o QAV, buscando atenuar parte do impacto financeiro sobre as transportadoras.
Mesmo com o alívio tributário, Alvo avalia que “a única forma de equilibrar a equação” é a redução adicional da oferta. Caso o cenário de preços se prolongue, novas revisões na malha não estão descartadas.
Capacidade, modelos de negócio e gestão de risco
A escalada do combustível impacta de forma diferente os diversos modelos de negócio. Companhias com maior participação de passageiros corporativos e premium tendem a absorver melhor o choque de custo, pois operam com yield médio mais elevado. Já transportadoras de baixo custo, cuja demanda é altamente sensível a preço, enfrentam margens comprimidas.
No caso da LATAM, parte do risco de preço é mitigada por contratos de hedge, mas os níveis atuais de QAV superam o teto da proteção financeira acordada. Isso significa que a companhia segue exposta a variações acima da faixa contratada, o que explica a decisão de enxugar capacidade.
Para investidores, o ambiente de alta volatilidade eleva a percepção de risco e repercute nos preços dos títulos atrelados ao setor aéreo. Em bolsa, ações de transportadoras internacionais como SAS, Air France-KLM e Lufthansa também registram correções após divulgarem aumento de custos operacionais nos balanços recentes.
Desafios adicionais na cadeia de suprimentos
Além do combustível, o setor lida com gargalos no fornecimento de aeronaves e motores. Fabricantes vêm sinalizando atrasos que podem se estender por 24 a 36 meses, exigindo a manutenção de aviões mais antigos em operação e comprometendo o ganho de eficiência de frota planejado pelas empresas.
Imagem: ciclismo e natureza sha checer o
Nos Estados Unidos, as transportadoras gastaram US$ 6,5 bilhões com combustível apenas em abril, alta de 78% em relação ao mesmo mês de 2025. Na Europa, pressões similares provocam revisões de oferta e encarecem tarifas, reforçando o caráter global da crise.
Para o passageiro, o reflexo mais imediato é a diminuição de frequências em rotas domésticas e internacionais, acompanhada de aumento tarifário. Companhias que não conseguirem repassar integralmente o custo ao consumidor poderão enfrentar deterioração de caixa já no curto prazo.
Cenário regulatório e iniciativas de mitigação
Governos regionais estudam mecanismos de estabilização de preços, entre eles a revisão periódica de alíquotas tributárias e a criação de fundos anticíclicos. No Brasil, a renovação mensal da isenção do QAV funciona como medida emergencial, mas a indústria pressiona por uma política de longo prazo que traga previsibilidade ao custo de abastecimento.
Em paralelo, projetos de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, na sigla em inglês) ganham tração como estratégia de diversificação energética, embora em escala ainda limitada e com preço superior ao do QAV fóssil. A LATAM mantém metas de incorporar até 5% de SAF em sua matriz energética até 2030, mas reconhece que os benefícios econômicos só virão com maior disponibilidade e incentivos de produção local.
Conclusão Técnica
A nova redução de 3% na malha aérea da LATAM reflete a combinação de pressão inédita dos combustíveis e limitações na cadeia de suprimentos aeronáuticos. Enquanto o preço do petróleo permanecer elevado e a instabilidade geopolítica persistir, ajustes adicionais de capacidade e custo tendem a ocorrer. A continuidade de incentivos fiscais ao QAV, avanços na oferta de SAF e a normalização do fornecimento de aeronaves serão fatores determinantes para o restabelecimento do equilíbrio operacional no setor aéreo latino-americano nos próximos trimestres.




