Entre a neblina constante e rajadas que superam 100 km/h na Serra do Rio do Rastro, a Hysterionica pinnatisecta – ou margarida-das-nuvens – iniciou o ciclo anual de floração, evidenciando um patrimônio botânico exclusivo do Planalto Sul brasileiro em pleno risco de extinção.
Habitat vertical e clima de extremos
Endêmica do corredor de altitude que compreende a Serra Geral, a margarida-das-nuvens habita fendas de rochas íngremes, característica que a classifica como planta rupícola. Esse tipo de substrato impede o acúmulo convencional de nutrientes, obrigando a espécie a desenvolver raízes curtas, porém altamente aderentes, capazes de captar umidade que escorre pela pedra. O ambiente, dominado por temperaturas negativas durante o inverno e forte insolação no verão, cria um microclima onde poucas plantas sobrevivem.
Em Lauro Müller (SC), principal núcleo populacional, as colônias florescem a altitudes que superam 1.400 metros. Pesquisadores registram ventos superiores a 100 km/h no topo dos paredões, além de geadas sucessivas que podem ocorrer de maio a setembro. Ainda que haja citações pontuais em Cambará do Sul (RS), o maior contingente conhecido permanece em território catarinense, com manchas populacionais monitoradas pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA).
Status de conservação e função como bioindicador
A margarida-das-nuvens figura na categoria Criticamente em Perigo da Lista Nacional de Espécies da Flora Ameaçada de Extinção e na classe Vulnerável da relação estadual. Essa classificação reflete não apenas a distribuição geográfica restrita, mas também a elevada sensibilidade da planta a variações na umidade e na frequência de geadas.
Por depender de névoa para hidratação e de fissuras rochosas para fixação, a espécie funciona como termômetro ambiental. Alterações na dinâmica de nuvens, no regime de precipitações ou no fluxo de ventos podem comprometer a absorção de água pelas folhas pilosas, impactando diretamente a taxa de germinação de sementes. Além disso, a exposição a espécies exóticas invasoras, como o tapete-inglês (Hieracium pilosella), intensifica a competição por luz e espaço, reduzindo o número de indivíduos jovens.
Imagem: Divulgação
Monitoramento científico e desafios na SC-390
Para mitigar riscos, o IMA, a Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade e a Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) formalizaram um acordo de cooperação focado em pesquisa de campo. Em outubro de 2025, equipes multidisciplinares percorreram o traçado da rodovia SC-390 – que corta o habitat natural – mapeando 100% dos maciços rochosos onde a flor ocorre. O levantamento apontou:
- 22 pontos críticos de presença do tapete-inglês, exigindo erradicação manual para evitar a dominância sobre a margarida-das-nuvens.
- 7 trechos suscetíveis a desprendimentos de rocha, cujo manejo inadequado poderia soterrar colônias inteiras.
- 3 áreas de drenagem onde a manutenção asfáltica altera o fluxo hídrico necessário ao abastecimento de umidade das plantas.
Com base nesses dados, a secretaria incluiu cláusulas de salvaguarda ambiental nos contratos de manutenção da SC-390, exigindo que empreiteiras respeitem perímetros de exclusão de até 5 metros em torno das colônias catalogadas.
Conclusão Técnica
A floração observada em 2024 confirma que a Hysterionica pinnatisecta mantém capacidade de reprodução mesmo sob pressões crescentes. Entretanto, a sobreposição de fatores – obras rodoviárias, avanço de espécies invasoras e oscilações climáticas – sustenta o status de alerta máximo. Os próximos passos previstos pelo IMA incluem a implantação de estações meteorológicas automáticas nas encostas para correlacionar dados microclimáticos com a fenologia da planta, além da ampliação do banco de sementes em câmaras frias de Florianópolis. O sucesso dessas medidas determinará se a margarida-das-nuvens continuará a florescer entre nuvens e rochas ou se se tornará apenas um registro histórico da biodiversidade da Serra Catarinense.




