Mercado calcula corte de 0,25 p.p. na Selic, mas risco de pausa ganha força às vésperas do Copom

Com a reunião do Comitê de Política Monetária agendada para esta quarta-feira, as probabilidades de corte de 0,25 ponto percentual na Selic e de manutenção em 14,50% ao ano chegaram a um equilíbrio inédito desde o início do atual ciclo de flexibilização, refletindo o choque inflacionário provocado pela guerra entre Estados Unidos e Irã e a consequente incerteza sobre a trajetória dos preços.

Probabilidades recalculadas: corte versus manutenção

Relatório do Goldman Sachs para a América Latina atribui 60% de chance a um ajuste de -0,25 p.p. e 40% à manutenção da taxa básica. Nos derivativos da B3, o balanço de apostas mostra 68% para o corte mínimo e 32% para pausa, após a probabilidade de manutenção ter atingido pico de 70% na semana anterior.

Fontes consultadas pelo mercado citam que diretores do Banco Central demonstraram inclinação a preservar a Selic em 14,50%, mas a comunicação oficial ainda aponta para continuidade do afrouxamento. A leitura predominante é que o Copom hesita em interromper o ciclo enquanto as taxas reais permanecem acima de 9,0%, patamar considerado fortemente contracionista.

Inflação, expectativas e riscos monitorados pelo Copom

O IPCA de maio apresentou alta acumulada de 4,72% em 12 meses, superando o teto da meta de 4,50%. Além do avanço nos preços correntes, as projeções para 2027 e 2028 subiram, indicando convergência mais lenta para o centro do objetivo de 3,00%. Três fatores concentram a atenção dos formuladores de política:

  • Persistência do choque externo: a escalada no preço do petróleo, resultado direto do conflito no Oriente Médio, ameaça transformar pressão temporária em permanente.
  • Deterioração das expectativas: aumentos sucessivos nas projeções de longo prazo para o IPCA podem exigir postura mais restritiva para recompor credibilidade.
  • Percepção de tolerância maior à meta: qualquer sinal de leniência pode ampliar prêmios de risco e comprometer o ganho reputacional acumulado desde o ciclo anterior.

Para a Inter Asset, tais fatores justificam postura de cautela, enquanto a XP enxerga avanço modesto na confiança dos agentes financeiros e, portanto, baixa probabilidade de pausa já em junho.

Cenários para a Selic até dezembro de 2026

As estimativas de taxa terminal no ano variam entre 12,75% e 14,50%. O Bank of America projeta mais um corte, estabilizando a Selic em 14,25%, mas espera remoção da orientação de “calibração contínua” no comunicado, o que encerraria espaço para flexibilizações adicionais em 2026.

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O Itaú elevou a projeção para 13,75%, citando “trade-off delicado” entre estímulo ao crescimento e risco de piora inflacionária. Instituições que trabalham com manutenção imediata consideram que novos cortes dependerão da efetivação do acordo de paz anunciado preliminarmente por Washington e Teerã, fator que pode normalizar a cadeia global de petróleo.

No mercado de juros futuros, a inclinação da curva recuou após o anúncio do possível cessar-fogo, mas permanece superior ao nível observado antes do conflito, refletindo prêmio de risco geopolítico ainda latente.

Conclusão Técnica

Às vésperas da decisão, o Banco Central lida com um balanço de riscos assimétrico: inflação corrente acima da meta, expectativas desancoradas e choque de oferta persistente contrabalançam a necessidade de sustentar a retomada econômica. A precificação majoritária favorece um ajuste marginal de -0,25 p.p.; contudo, a probabilidade de pausa alcançou patamar relevante, colocando a autoridade monetária sob escrutínio em relação à consistência do regime de metas. O comunicado pós-reunião deverá indicar se o ciclo de flexibilização encontra-se perto do limite ou se haverá margem residual para cortes adicionais, condicionada à evolução do conflito no Oriente Médio e ao comportamento das expectativas inflacionárias.