Uma queda de aproximadamente 40 metros durante um salto de rope jump matou a estudante de Educação Física Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21 anos, na manhã de sábado, 13 de julho, na Ponte do Esqueleto, em Limeira (SP); a Polícia Civil investiga negligência operacional depois de confirmar que a corda não estava conectada ao equipamento.
Dinâmica do acidente e primeiros atendimentos
Conforme boletim da Polícia Militar, o grupo responsável pela atividade preparava a sequência de saltos quando a jovem foi lançada da plataforma sem a ancoragem obrigatória. Testemunhas relataram ter ouvido o alerta “gente, a corda” segundos antes da queda. A vítima atingiu o solo após um desnível vertical estimado em 40 m, distância equivalente a um prédio de 13 andares. Equipes do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atenderam ao chamado às 10h17, mas o óbito foi constatado ainda no local.
Após o impacto, integrantes da operação teriam deixado a área, segundo depoimentos colhidos pelos militares. A saída repentina dificultou a identificação imediata dos responsáveis. Horas depois, já em diligências na região, policiais localizaram seis suspeitos, que foram encaminhados à Delegacia Seccional de Limeira.
Perfil da vítima e popularização do rope jump
Maria Eduarda, residente em Jandira, na Grande São Paulo, era formada em Educação Física e Gestão Esportiva. Em redes sociais, acumulava publicações sobre trilhas, escaladas e esportes radicais. Minutos antes do acidente, registrou nos stories o cenário da ponte com a legenda: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???”.
O rope jump é uma modalidade de salto controlado que utiliza sistemas de ancoragem múltipla, cordas dinâmicas e pontos de frenagem progressiva. Diferencia-se do bungee jump por não empregar corda elástica e por exigir cálculo preciso de trajetória e velocidade máxima, reduzindo o impacto no final do percurso. A atividade ganhou adeptos no interior paulista a partir de 2015, especialmente em pontes ferroviárias desativadas, como a própria Ponte do Esqueleto, inaugurada em 1902 e desativada para tráfego ferroviário desde 2001.
Embora praticado de forma recreativa, o esporte requer cumprimento das normas técnicas ABNT NBR 15595 (Sistemas de Ancoragem) e NR-35 (Trabalho em Altura) quando oferecido comercialmente. Ausência de certificação, inspeção de pontos fixos e dupla checagem de equipamentos são falhas recorrentes apontadas em relatórios de associações esportivas.
Investigações, possíveis crimes e consequências regulatórias
O inquérito instaurado pela Delegacia de Investigações Gerais de Limeira apura as circunstâncias em três frentes:
- Responsabilidade técnica – verificação de qual profissional assinou o plano de ancoragem e se possuía certificação válida.
- Conduta dos operadores – análise de vídeos e depoimentos para confirmar se houve dolo eventual ou culpa consciente ao permitir o salto sem conexão.
- Licenciamento da atividade – checagem de alvarás municipais, seguros obrigatórios e contrato de prestação de serviço.
Os seis detidos podem responder por homicídio culposo (Art. 121, §3º do Código Penal) e por omissão de socorro (Art. 135). Caso se comprove prestação de serviço sem habilitação, incidem ainda dispositivos do Estatuto do Consumidor.
Imagem: Reprodução
A Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo informou que abrirá procedimento para mapear empresas que ofertam saltos em estruturas públicas. Já a Agência Nacional de Normas Técnicas (ABNT) pretende convocar especialistas para revisar parâmetros de inspeção de pontes utilizadas em esportes de aventura.
Histórico de incidentes similares e panorama de segurança
Relatório da Associação Brasileira de Esportes de Aventura (ABEA) registra, entre 2019 e 2023, 11 acidentes graves envolvendo rope jump no país, com três mortes confirmadas. A maioria ocorreu em pontes sem laudo estrutural atualizado ou sob gestão informal de grupos independentes.
Especialistas em engenharia de segurança afirmam que o principal fator de risco é a falha no protocolo conhecido como “sistema redundante”, que determina verificação cruzada e dupla ancoragem antes do salto. No caso de Limeira, a inexistência de qualquer conexão – primária ou secundária – indica ruptura completa do processo de checagem.
A popularização de vídeos curtos nas redes sociais intensificou a busca por “experiências extremas” e ampliou a oferta de pacotes sem supervisão certificada. Organizações do setor defendem criação de um cadastro nacional de instrutores e auditorias periódicas em equipamentos coletivos.
Conclusão Técnica
A morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas evidencia lacunas críticas nos procedimentos de segurança do rope jump praticado de forma comercial no interior de São Paulo. A investigação policial deve esclarecer se houve negligência individual ou falha sistêmica na gestão da atividade. Em paralelo, órgãos reguladores analisam a necessidade de normas mais rígidas de licenciamento, fiscalização e certificação de operadores. Até a conclusão do inquérito e eventual denúncia do Ministério Público, a prática permanece suspensa na Ponte do Esqueleto, e os seis envolvidos continuam à disposição da Justiça para apuração de responsabilidade penal e civil.




