Mulher morre sete dias após ser queimada pelo filho durante abordagem policial no Espírito Santo

Silvia Pereira, 56 anos, não resistiu às queimaduras sofridas durante uma blitz de trânsito em 28 de abril, no distrito de Melgaço, município de Domingos Martins (ES), e faleceu na manhã de 4 de maio, sete dias depois de ter sido internada em estado crítico.

Sequência dos acontecimentos: da blitz ao óbito

Segundo o boletim de ocorrência da Polícia Militar, a operação de fiscalização focava motocicletas sem registro regular. Às 10h45, agentes abordaram um homem de 33 anos conduzindo uma motocicleta sem placa. Depois de informado sobre a remoção do veículo para o pátio credenciado, o condutor deixou o local.

Às 11h12, câmeras de monitoramento registraram o retorno do suspeito com um galão de cinco litros de gasolina. O vídeo mostra o momento em que o combustível é derramado sobre a própria motocicleta. Em seguida, ele risca um fósforo e inicia o incêndio. Silvia Pereira, que se aproximou para tentar contê-lo, teve as roupas e parte do corpo imediatamente consumidos pelas chamas. Testemunhas acionaram o Corpo de Bombeiros e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que chegaram em 12 minutos.

Conforme o laudo do Hospital Estadual Jayme Santos Neves, a vítima apresentava queimaduras de terceiro grau em 38 % da superfície corporal, principalmente em face, membros superiores e tórax. Ela foi intubada ainda na UTI de urgência. O óbito foi declarado às 6h14 do dia 4 de maio, decorrente de falência múltipla de órgãos associada a choque séptico.

Dados processuais e enquadramentos criminais

Após ser atendido no mesmo hospital por queimaduras nas mãos e antebraços, o suspeito recebeu alta no dia 1º de maio e foi imediatamente levado para a 7ª Delegacia Regional, em Vitória. O delegado responsável confirmou a autuação por três crimes:

  • Tentativa de homicídio qualificado – uso de fogo (art. 121 §2º, inc. III combinado com art. 14, II, do Código Penal);
  • Incêndio criminoso – art. 250, caput;
  • Resistência – art. 329.

Na audiência de custódia realizada em 2 de maio, o juiz plantonista converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva, citando a periculosidade do agente e a necessidade de garantir a ordem pública. O réu permanece no Complexo Penitenciário de Viana, aguardando denúncia formal do Ministério Público Estadual, que tem prazo legal de cinco dias úteis após o recebimento do inquérito.

Contexto estatístico e precedentes

Dados da Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo indicam que, em 2023, o estado registrou 124 ocorrências de lesão corporal seguida de morte envolvendo parentes de primeiro grau. Desse total, 11 % tiveram como agravante o uso de incêndio ou material inflamável.

Especialistas em criminologia apontam que situações de conflito intrafamiliar podem ser precipitadas por abordagens policiais quando há resistência à fiscalização. Relatório da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (FIPE) de 2022 demonstrou aumento de 8,6 % em casos de violência extrema contra familiares durante intervenções das forças de segurança, reforçando a necessidade de protocolos de mediação.

Mulher morre sete dias após ser queimada pelo filho durante abordagem policial no Espírito Santo - Imagem do artigo original

Imagem: Mãe que foi queimada pelo próprio filho abordag policial morre

No código penal brasileiro, o emprego de fogo para atentar contra a vida eleva a pena-base de homicídio qualificado, que pode chegar a 30 anos de reclusão. Caso a acusação seja mantida e o réu condenado, a soma das penas pode ultrapassar 40 anos, considerando concurso material entre os crimes.

Repercussões e próximos passos institucionais

A Corregedoria-Geral da Polícia Militar instaurou procedimento administrativo para revisar a conduta dos agentes na operação, focando no cumprimento das normas de abordagem e contenção de conflitos. Fontes internas afirmam que as câmeras corporais dos policiais foram recolhidas para perícia, cujo resultado deve ser anexado ao inquérito até 20 de maio.

A Prefeitura de Domingos Martins decretou luto oficial de três dias e anunciou apoio psicológico à família. A Secretaria Estadual de Políticas para Mulheres comunicou que disponibilizará assistência social para as filhas da vítima, de 22 e 25 anos.

No Poder Judiciário, o processo correrá na 1ª Vara Criminal de Domingos Martins. A expectativa é de que a primeira audiência de instrução e julgamento ocorra entre julho e agosto, conforme o rito do Tribunal do Júri.

Conclusão Técnica

O falecimento de Silvia Pereira encerra a fase hospitalar do caso e desloca o foco para o desdobramento criminal. O inquérito policial, agora complementado por laudos periciais e imagens de câmeras de segurança, deverá subsidiar a denúncia do Ministério Público. A defesa deve pleitear exame de sanidade mental, argumento já sugerido durante a custódia. Enquanto isso, a Corregedoria avalia se os protocolos operacionais da blitz foram seguidos integralmente. A responsabilização penal do agressor, somada à análise administrativa interna, definirá os parâmetros de prevenção para futuras operações de fiscalização no Espírito Santo.