Neogrid avança em OPA e prepara saída da B3 após parecer favorável do conselho

Neogrid recebeu parecer unânime do conselho de administração que respalda a oferta pública de aquisição (OPA) conduzida pelo Grupo Hindiana, passo decisivo para deixar o Novo Mercado da B3 em 27 de maio de 2026, quando ocorrerá o leilão que determinará o futuro da companhia catarinense.

Evolução da oferta pública e revisão de preço

A proposta inicial apresentada em dezembro de 2025 previa pagamento de R$ 29,00 por ação ordinária (NGRD3). A contestação de acionistas relevantes, como o Fundo L4, motivou a contratação da Seneca Evercore para elaborar laudo de avaliação independente. Esse estudo apontou faixa de valor justo entre R$ 29,42 e R$ 32,36 por papel.

Com base nesse intervalo, o preço foi reajustado para R$ 30,89, montante que será corrigido pela taxa Selic a partir de 30 de setembro de 2025 até a liquidação financeira. O conselho destacou que o novo preço situa-se exatamente no ponto médio da faixa calculada pelo método de Fluxo de Caixa Descontado (FCD), considerado o modelo mais aderente às características de geração de caixa da empresa.

Para assegurar isenção, os conselheiros ligados aos fundadores Miguel Abuhab e David Abuhab abstiveram-se da votação, enquanto os membros independentes emitiram parecer sem ressalvas. Além dos aspectos financeiros, foi avaliada a estratégia delineada pela Dalpe Gestão e Participações, veículo do Grupo Hindiana responsável pela transação.

Repercussões para governança e estrutura acionária

Ao aderirem à OPA, os investidores terão liquidez imediata e se desvincularão das obrigações típicas de uma companhia aberta. Caso permaneçam, enfrentarão um ambiente de capital fechado, com redução de transparência e de liquidez secundária. O conselho alertou que, uma vez cancelado o registro, cessarão divulgações periódicas como ITRs, fatos relevantes e a exigência de conselheiros independentes.

Até o momento, há compromissos irrevogáveis de adesão que representam cerca de 21 % do free float, incluindo participações do Fundo L4 e do investidor Ricardo Goldfarb. Esse percentual, somado ao bloco de controle, eleva as probabilidades de sucesso do leilão de 27 de maio. A migração para o portfólio do Grupo Hindiana prevê manutenção de Miguel Abuhab como executive chairman e líder do Comitê de Inovação, assegurando continuidade na agenda tecnológica.

No novo ecossistema, a companhia poderá integrar-se a ativos como a securitizadora CERC, a plataforma logística Nstech e a fintech Blu Pagamentos. A sinergia estimada envolve compartilhamento de dados, otimização de rotas logísticas e oferta ampliada de soluções SaaS para varejistas e indústrias.

Contexto setorial e impacto na bolsa brasileira

A listagem da Neogrid em 2020 coincidiu com juros básicos em mínimas históricas, ampla liquidez global e forte demanda por empresas de tecnologia. O cenário mudou a partir de 2021, quando o Banco Central iniciou ciclo de aperto monetário que levou a Selic de 2 % para patamar superior a 10 % ao ano. Nesse ambiente, investidores passaram a priorizar previsibilidade de caixa, pressionando múltiplos de small caps de software.

Com a saída de Neogrid, o número de empresas listadas no segmento de tecnologia do Novo Mercado encolhe ainda mais, reforçando a percepção de “deslistagem voluntária” que já envolveu nomes como Linx, Tecnisa Tech e Locaweb Pay em operações recentes. O movimento também sinaliza desafios para a B3 em manter atração de companhias intensivas em P&D num período de custos de capital elevados.

Para o mercado de capitais, a operação representa redução adicional de liquidez em um setor considerado estratégico para diversificação do índice. Analistas monitoram a possibilidade de novas OPAs, sobretudo em empresas cujo valor de mercado permaneceu abaixo do preço de IPO por período prolongado.

Conclusão Técnica

O parecer favorável do conselho coloca a Neogrid a um passo de converter-se em empresa de capital fechado sob gestão do Grupo Hindiana. A precificação revista para R$ 30,89 por ação equilibra expectativas de minoritários e viabiliza o cancelamento de registro na Comissão de Valores Mobiliários, caso mais de dois terços das ações em circulação sejam captadas no leilão de 27 de maio de 2026. Se a adesão superar esse limiar, o processo de deslistagem seguirá para homologação final e, em seguida, a companhia deixará de publicar informações regulatórias. Enquanto isso, investidores devem ponderar entre realizar o fluxo de caixa imediato ou permanecer num veículo privado que promete sinergias operacionais, porém com menor grau de transparência pública.