Salas VIP entram em nova fase: bancos e bandeiras intensificam disputa por exclusividade nos aeroportos

A redefinição do acesso às salas VIP atingiu um ponto crítico em 2026, quando emissores de cartões, bandeiras e operadores aeroportuários ajustaram critérios de elegibilidade, elevaram gastos mínimos e investiram em lounges proprietários para conter custos que variam de US$ 20 a US$ 40 por visita, segundo contratos vigentes nos principais hubs do país.

Expansão acelerada deu origem ao excesso de demanda

Ao longo de mais de dez anos, o benefício de lounge foi alçado a símbolo do segmento premium. A entrada de fintechs como Nubank, Inter, BTG Pactual e Nomad ampliou a oferta, pulverizando o privilégio antes restrito a alta renda. Dados de mercado indicam que o volume de cartões com acesso a salas VIP cresceu em ritmo superior à capacidade física dos terminais, especialmente após a pandemia, quando o tráfego aéreo voltou a subir.

Em resposta, diversos emissores migraram do modelo de “cartão de gaveta” — quando o cliente mantém o produto sem utilizá-lo — para exigências de principalidade. O exemplo mais citado é o Santander, que vinculou permanência de acessos gratuitos a metas de gastos mensais e investimentos. A política sinaliza tendência de todo o setor: somente usuários ativos e rentáveis mantêm benefícios integrais.

Guarulhos Terminal 3: epicentro da reconfiguração

O Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos tornou-se o eixo estratégico da “guerra das salas VIP” no Brasil. Em 2025 e 2026, o local passou por redistribuição de espaços que envolveu:

  • Banco do Brasil inaugurando operação própria para clientes alta renda;
  • Safra deixando de operar o endereço mais disputado do terminal;
  • American Express encerrando uma de suas salas emblemáticas;
  • Itaú preparando abertura de lounge com design focado em experiência digital.

Paralelamente, bandeiras Mastercard e Visa competem por metros quadrados para formatos diferenciados, enquanto operadores independentes ajustam contratos a um ambiente em que cada assento precisa gerar retorno mensurável.

Cálculo econômico impulsiona salões próprios e segmentação de público

Cada acesso a um lounge administrado por terceiros implica repasse financeiro ao emissor. Quando multiplicadas por milhões de visitas anuais, essas cifras pressionam os indicadores de rentabilidade dos portfólios premium. Para mitigar a despesa recorrente, instituições passaram a adotar três frentes:

  1. Construção de lounges proprietários — reduz o desembolso por visita e reforça branding, transformando o espaço em extensão da agência física.
  2. Critérios de qualificação mais rígidos — incluem gastos mínimos mensais, investimentos em previdência e consolidado de relacionamento.
  3. Segmentação interna — surgimento de salões ultra exclusivos, como o Visa Privilege e o Mastercard Taste, destinados a clientes de altíssimo valor.

Além das iniciativas bancárias, o Terminal BTG Pactual reforça a estratégia de integrar gestão patrimonial a experiências de viagem, exemplificando como a economia de lounges transita para um modelo de hospitalidade financeira.

Alternativas ao conceito tradicional de lounge ganham tração

Com a saturação dos espaços, soluções que distribuem fluxo pelo aeroporto avançam. Entre elas, destacam-se os créditos para restaurantes credenciados e o formato Grab & Go, já adotado em grandes hubs internacionais. Nesses esquemas, o passageiro retira refeições ou bebidas e segue viagem sem ocupar poltrona em sala VIP, aliviando picos de lotação e reduzindo custos operacionais.

Movimentos táticos dos principais players brasileiros

Cada emissor articula posicionamento próprio:

  • Nubank prioriza experiências integradas ao seu ecossistema, mirando aumento da base Ultravioleta.
  • Itaú aposta em presença física robusta e parceria com programas de fidelidade a fim de reforçar percepção de valor.
  • Santander consolida política de principalidade, alinhando metas de gasto a pacotes de acesso ilimitado.
  • BTG Pactual estende benefícios a clientes de wealth management, conectando viagens a gestão de ativos.
  • Nomad expande serviços internacionais para brasileiros que concentram renda em moeda forte.
  • Inter busca equilíbrio entre expansão de portfólio e rentabilidade, calibrando custos de lounge com ofertas de cashback.

Perspectivas de curto e médio prazo

Analistas projetam que, até 2028, o acesso a salas VIP continue disponível, porém ancorado em maior engajamento dos clientes com produtos financeiros. A expectativa é que:

  • O número total de lounges cresça, mas em ritmo inferior ao ciclo anterior;
  • Experiências exclusivas — private rooms, traslados internos e serviços personalizados — se tornem diferencial competitivo;
  • Soluções flexíveis fora do lounge tradicional representem parcela mais significativa do orçamento de benefícios.

Conclusão técnica

A reestruturação das salas VIP reflete ajuste de custos e redirecionamento estratégico da indústria de cartões. A pressão financeira associada ao modelo de livre acesso motivou a migração para lounges proprietários, regras de principalidade e segmentação de públicos. O eixo de disputa concentra-se no GRU Terminal 3, onde metros quadrados traduzem valor de marca. Nos próximos anos, benefícios permanecerão presentes, porém condicionados a maior atividade financeira dos portadores, enquanto formatos alternativos devem complementar a oferta tradicional, compondo um panorama mais sustentável para emissores e passageiros.