Oferta pública de aquisição pode retirar a Braskem da bolsa; controlador mira 100% das ações

O controlador da Braskem protocolou junto à CVM o pedido de oferta pública de aquisição (OPA) para comprar 100% das ações ordinárias e preferenciais da petroquímica, movimento que pode culminar no fechamento de capital da companhia. O anúncio, feito na manhã de 11 de junho de 2026, impulsionou os papéis BRKM5, que às 11h30 exibiam alta de 5,06%, cotados a R$ 9,75, liderando os ganhos do Ibovespa.

Estrutura da proposta e trâmites regulatórios

A oferta será conduzida pelo fundo Shine, veículo de investimento gerido pela IG4 Capital, que detém 50,1% das ações com direito a voto da Braskem. A Petrobras permanece com participação de 47%. De acordo com o fato relevante, os acionistas que aceitarem a OPA receberão a mesma contrapartida empregada na aquisição do controle junto à Novonor: uma combinação de debêntures emitidas pela NSP Investimentos.

O início efetivo da operação depende da concessão de registro pela CVM e pela B3. Após o aval, será divulgado o edital definitivo contendo preço por ação, cronograma e demais condições. Até lá, permanecem válidas as regras de negociação em bolsa e não há garantia de que a transação será concluída.

Reação do mercado e avaliação de analistas

A notícia da OPA adicionou um catalisador positivo às ações, que acumulavam queda de 6,90% em doze meses e de 7,17% em junho. Em relatório distribuído no mesmo dia, o Citi reduziu o preço-alvo de R$ 14,00 para R$ 11,50, mas incluiu monitoramento de alta (Catalyst Watch) baseado na possibilidade de um plano de recuperação financeira. O banco enxerga potencial de valorização de 16,2% frente à última cotação, apesar de manter recomendação neutra e classificação de alto risco.

Segundo o Citi, o múltiplo preço/Ebitda da Braskem encolheu diante da deterioração dos spreads petroquímicos, revertendo a expectativa de benefício derivado do aperto de oferta no Oriente Médio. O fechamento do Estreito de Ormuz encareceu produtos na Ásia entre março e abril, mas o aumento subsequente de cargas mais baratas pressionou preços na Europa e Américas, limitando margens.

Pressões financeiras e necessidade de reestruturação

No fim do 1T26, a Braskem registrava dívida bruta de US$ 9,4 bilhões (R$ 48,6 bilhões), dos quais 91% denominados em moeda estrangeira. A companhia apresentou aos detentores de bonds proposta de alongamento do vencimento em cinco anos e corte de 2 p.p. na taxa de juros. Reportagem do Broadcast indicou ainda risco de inadimplência em juros de R$ 760 milhões com vencimento entre julho e agosto.

Em cenário base traçado pelo Citi, a petroquímica buscaria período de carência até 2027 e desconto de 5% a 25% sobre a dívida, sem conversão de débitos em ações — mecanismo que evitaria diluição de acionistas minoritários. Se aprovado, o pacote deve reduzir alavancagem no curto prazo, condição necessária para sustentar a oferta pública de aquisição.

Contexto operacional e mudanças societárias

Desde a pandemia, a empresa enfrenta queda estrutural na demanda global por resinas termoplásticas, somada a excesso de oferta proveniente da Ásia. Internamente, segue arcando com custos e provisões relacionados ao afundamento do bairro do Piniquio, em Maceió. A troca recente de CEO e CFO reflete o esforço dos novos controladores em reposicionar a governança e restabelecer confiança no mercado.

Além da OPA, a Braskem avalia desinvestimentos não estratégicos e revisão de capex para preservar caixa. O plano também inclui otimização logística e renegociação de contratos de fornecimento de eteno e energia, insumos que representam parcela significativa do custo de produção.

Conclusão técnica

A intenção de realizar OPA eleva a incerteza de curto prazo sobre a permanência da Braskem na bolsa, mas oferece alternativa de liquidez imediata aos acionistas. A efetividade do processo depende de três fatores: (i) aprovação regulatória, (ii) adesão dos minoritários e (iii) sucesso na reestruturação de dívida externa. Enquanto isso, o desempenho dos papéis continuará sensível às negociações com credores, à evolução dos spreads petroquímicos e às decisões estratégicas do novo controlador. A divulgação do edital da oferta e eventual detalhamento do plano financeiro são os próximos marcos acompanhados pelo mercado.