Petróleo recua ao menor nível em um mês após sinal diplomático entre EUA e Irã e pressiona ações da Petrobras

Os preços do petróleo despencaram nesta quarta-feira (27) para o patamar mais baixo em mais de 30 dias, após a divulgação de indícios de avanço nas tratativas entre Estados Unidos e Irã sobre a circulação de navios no Estreito de Ormuz; o movimento derrubou as ações da Petrobras e contribuiu para a queda de 0,48% do Ibovespa.

Origem da queda: memorando preliminar entre Washington e Teerã

A sessão começou com forte volatilidade quando a emissora estatal iraniana noticiou a existência de um rascunho de memorando de entendimento que prevê a normalização do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz dentro de 30 dias. Em contrapartida, segundo o mesmo documento, Washington retiraria parte de seu contingente militar da região e suspenderia o bloqueio naval próximo ao território iraniano.

Embora a Casa Branca tenha classificado o conteúdo como “fabricação completa”, declarações subsequentes mantiveram a percepção de algum progresso:

  • Donald Trump, presidente norte-americano, assegurou que o Estreito “permanecerá aberto a todos”.
  • Marco Rubio, secretário de Estado, afirmou haver “algum avanço” nas negociações bilaterais.

A simples perspectiva de alívio geopolítico reduziu instantaneamente os prêmios de risco embutidos nos contratos futuros de petróleo.

Desempenho das principais referências da commodity

Na ICE, o contrato mais líquido do Petróleo Brent recuou 4,57%, encerrando a US$ 92,25 por barril, após tocar a mínima intradiária de US$ 91,75 — valor mais baixo desde 17 de abril. Já na Nymex, o West Texas Intermediate (WTI) para entrega em julho caiu 5,55%, fechando a US$ 88,68 e atingindo o menor preço desde 21 de abril.

Segundo Russ Mould, diretor de investimentos da AJ Bell, a permanência do Brent abaixo de US$ 100 confirma a leitura do mercado de que negociações concretas podem estar em curso. Ele alerta, contudo, que um eventual impasse pode “esgotar a paciência” dos agentes financeiros, reativando a pressão compradora sobre os prêmios de risco.

Paralelamente, a presidente do Federal Reserve de Dallas, Lorie Logan, advertiu que a manutenção de gargalos logísticos no Estreito poderia frear o consumo global de petróleo e gás de maneira “mais significativa” do que o projetado.

Impacto imediato sobre Petrobras, Ibovespa e câmbio

A retração da commodity repercutiu diretamente nas ações da Petrobras. Os papéis ordinários PETR3 recuaram 1,62%, cotados a R$ 48,10, enquanto os preferenciais PETR4 caíram 1,45%, a R$ 42,81. O volume financeiro de R$ 1,77 bilhão em PETR4 liderou as negociações da B3.

Com peso relevante do segmento de petróleo e gás, o Ibovespa encerrou em -0,48%, aos 175.744,37 pontos. No câmbio, o dólar à vista avançou 0,67%, fechando a R$ 5,0609.

Setores de mineração e siderurgia funcionaram como contrapeso. A Usiminas (USIM5) liderou as altas, com ganho de 6,21%, e a Vale (VALE3) subiu 0,40%, mesmo diante da leve queda de 0,32% no minério de ferro em Dalian.

Referências macroeconômicas internas e externas

No âmbito doméstico, a divulgação do IPCA-15 de maio trouxe variação de 0,62% no mês e acumulado anual de 4,64%, superando o teto da meta do Banco Central. Para Laís Costa, analista da Empiricus Research, a leitura reforça o “sinal de alerta” para a política monetária, dada a meta contínua de 3%.

Nos Estados Unidos, os principais índices acionários renovaram máximas históricas:

  • Dow Jones: +0,36%, 50.644,28 pontos
  • S&P 500: +0,02%, 7.520,36 pontos
  • Nasdaq: +0,07%, 26.674,735 pontos

Na Europa, o Stoxx 600 subiu 0,03%, enquanto na Ásia o Nikkei avançou 0,01% e o Hang Seng recuou 1,06%.

Conclusão técnica

A correção superior a 4% nos contratos do Brent e de mais de 5% no WTI evidencia a sensibilidade imediata do mercado a qualquer sinal de distensão no Oriente Médio. Enquanto a veracidade do memorando divulgado pela mídia iraniana permanece incerta, a simples possibilidade de redução de tensões já recalibrou expectativas de oferta e preços. No curto prazo, a trajetória da commodity continuará condicionada à evolução das conversas diplomáticas e ao fluxo de informações oficiais de Washington e Teerã. Para o investidor local, a volatilidade inerente ao setor de energia permanece um fator central na precificação de Petrobras e, por extensão, do Ibovespa, especialmente diante de indicadores domésticos de inflação acima do objetivo do Banco Central.