Justiça homologa recuperação extrajudicial e garante fôlego de R$ 1,3 bi para a Kora Saúde

Kora Saúde obteve nesta segunda-feira, 4 de maio de 2026, a homologação judicial do seu plano de recuperação extrajudicial, assegurando a repactuação de um passivo de R$ 1,3 bilhão junto a credores financeiros e preservando a continuidade das operações em 15 hospitais distribuídos por Espírito Santo, Ceará e Distrito Federal.

Decisão da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais

O Juízo da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo deferiu o processamento da recuperação extrajudicial de Kora Saúde (KRSA3) e de 13 controladas após verificar o cumprimento dos requisitos do art. 161 da Lei 11.101/2005. O despacho reconheceu a adesão expressa de mais de 60 % dos credores financeiros, percentual mínimo exigido para a homologação.

Assinado em 29 de abril de 2026, o acordo já havia sido submetido a registro em cartório antes de chegar ao Poder Judiciário. Com a chancela, todos os créditos abrangidos passam a obedecer ao novo cronograma de pagamentos, que inclui carência inicial de 24 meses e extensão dos vencimentos para até dez anos.

Os credores que não anuíram previamente foram incluídos na decisão pelos efeitos vinculantes previstos em lei, mas mantêm direito a impugnação nos prazos processuais. A companhia indicou, em comunicado ao mercado, que eventuais contestações não suspendem a eficácia imediata do plano.

Pilares financeiros da reestruturação

O passivo renegociado, estimado em R$ 1,3 bilhão, concentra-se em linhas de capital de giro, CCBs e debêntures emitidas entre 2020 e 2023. Os principais eixos da estratégia são:

  • Alongamento de prazos: amortizações redistribuídas até 2036, com juros capitalizados durante a carência e redução média de 35 % no serviço anual da dívida.
  • Redução de custos financeiros: spread médio recuando de CDI + 4,1 % para CDI + 2,5 %, condicionado ao cumprimento de covenants de alavancagem trimestral.
  • Cláusula de recompra antecipada: autorização para liquidação parcial caso a companhia realize emissões futuras de ações ou venda de ativos não operacionais.

Paralelamente, o conselho aprovou programa interno de eficiência com meta de economizar R$ 120 milhões anuais em despesas administrativas. Entre as medidas já implementadas está a extinção de um assento no conselho de administração, sem reposição imediata, e a centralização de compras hospitalares.

Blindagem operacional e impacto sobre stakeholders

O plano aprovado restringe-se a credores financeiros, deixando fora da renegociação fornecedores médicos, funcionários e parceiros de serviços terceirizados. Dessa forma, os cerca de 10 mil médicos vinculados à rede continuam recebendo honorários nos prazos habituais, e contratos de fornecimento de insumos hospitalares seguem válidos.

Com 2.100 leitos ativos, a Kora Saúde atende principalmente procedimentos de média e alta complexidade, em sua maioria remunerados por operadoras de planos de saúde. A blindagem operacional busca evitar prejuízos aos índices de ocupação, que fecharam o primeiro trimestre em 73 %, e manter a geração de caixa necessária para honrar as novas obrigações.

No relatório mais recente, a companhia apontou receita líquida de R$ 3,4 bilhões em 2025 e EBITDA ajustado de R$ 610 milhões, resultando em alavancagem de 4,8 vezes. A expectativa interna, após a reestruturação, é reduzir o indicador para 3,0 vezes até o final de 2027.

Conclusão técnica e próximos passos

A homologação da recuperação extrajudicial proporciona à Kora Saúde prazo e liquidez para equilibrar a estrutura de capital, sem interferir no atendimento hospitalar nem na remuneração de profissionais essenciais. A companhia segue em diálogo com os credores que não aderiram ao acordo inicial, podendo submeter aditivos ao Juízo caso obtenha novas assinaturas. Auditorias trimestrais independentes acompanharão o cumprimento dos covenants. Caso os indicadores projetados sejam alcançados, a administração planeja retomar o ciclo normal de investimentos em expansão orgânica a partir de 2028.