O lendário robô exibido pela antiga loja de eletrodomésticos Fainco, em Florianópolis, voltou ao centro das atenções depois que pesquisadores utilizaram recursos de inteligência artificial para reconstruir sua trajetória e disponibilizar novo material audiovisual sobre o autômato, criado há quase meio século como peça de marketing e entretenimento.
Da concepção à vitrine: o projeto que marcou a década de 1970
Documentos comerciais consultados em acervos locais indicam que a Fainco encomendou o robô em 1974, período em que a corrida tecnológica atraía consumidores fascinados por eletrônica. A estrutura mecânica, confeccionada em alumínio polido, possuía 1,60 metro de altura, braços articulados acionados por motores de passo e um painel frontal iluminado que exibia mensagens programadas em cartões perfurados. A montagem ficou a cargo de ex-alunos do curso de Engenharia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que aproveitaram componentes industriais disponíveis no mercado nacional.
Além de movimentar membros e acenar para o público, o autômato era capaz de reproduzir gravações em fita magnética com saudações publicitárias. O objetivo estratégico era diferenciar a Fainco dos concorrentes, atraindo fluxo constante de visitantes à loja-matriz situada na então Avenida Rio Branco. Segundo recortes de jornais da época, o equipamento realizava cerca de nove apresentações diárias, sempre acompanhado por um operador oculto nos bastidores que controlava suas funções principais.
Repercussão regional e impacto cultural em Florianópolis
A presença de um robô funcional em plena década de 1970 transformou-se rapidamente em atração turística. Veículos como o jornal A Notícia registraram filas de até 300 pessoas nos finais de semana, reflexo de um cenário em que a popularização da robótica ainda parecia distante do cotidiano brasileiro. Colunistas sociais, entre eles Cacau Menezes, destacaram o “caráter futurista” do show mecânico, classificando-o como símbolo de modernidade para a capital catarinense.
Relatos preservados no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina revelam que excursões escolares eram agendadas para a demonstração — fator que ajudou a fixar o robô no imaginário de uma geração. A iniciativa também impulsionou as vendas da Fainco em 15 % durante o primeiro trimestre de exibição, conforme balanço interno divulgado em 1975. O sucesso motivou a empresa a transportar o autômato para feiras comerciais em Curitiba, Joinville e Porto Alegre, reforçando a marca em todo o Sul do país.
Resgate histórico apoiado por inteligência artificial
Décadas depois, parte do material audiovisual original perdeu-se devido à degradação de fitas e fotografias. Em 2026, um grupo de historiadores e cientistas da computação iniciou projeto de recuperação digital. O processo incluiu:
- Restauração de vídeo: fitas Betacam foram convertidas para formato digital; algoritmos de deep learning removeram ruídos, corrigiram cores e interpolaram quadros, elevando a taxa de 25 para 60 fps.
- Reconstrução 3D: imagens de diferentes ângulos alimentaram um modelo fotogramétrico que gerou malha tridimensional detalhada do robô.
- Síntese de voz: gravações de falas originais foram analisadas para treinar um sistema de clonagem vocal, permitindo replicar as frases publicitárias com clareza próxima da fonte.
O resultado foi compilado em um vídeo de 2 minutos e 18 segundos, hospedado em servidores do ND Mais e distribuído em plataformas sociais. Em menos de 24 horas, o conteúdo alcançou 150 mil visualizações, reacendendo discussões sobre a importância da preservação tecnológica regional.
Imagem: Internet
Além do aspecto visual, os pesquisadores catalogaram 42 depoimentos colhidos entre ex-funcionários da Fainco e frequentadores da loja nos anos setenta. Esses registros, associados à reconstrução em três dimensões, compõem um banco de dados aberto para futuras investigações sobre a história da robótica de entretenimento no Brasil.
Conclusão técnica e perspectivas
A retomada da narrativa do robô da Fainco demonstra como ferramentas contemporâneas de inteligência artificial podem ampliar a capacidade de preservação de patrimônios modernos, especialmente quando fontes físicas vêm se deteriorando ao longo do tempo. O projeto revelou lacunas documentais, mas também ofereceu novos recursos de análise, permitindo verificar especificações mecânicas e impactos econômicos com maior precisão.
Para os próximos meses, os responsáveis pelo acervo planejam expandir o modelo 3D para realidade aumentada, viabilizando exposições itinerantes em espaços culturais catarinenses. Há ainda tratativas com o Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) para incorporar o estudo em disciplinas de automação e mecatrônica, transformando o caso em referência acadêmica sobre evolução tecnológica no varejo.
A repercussão alcançada reforça a tendência de utilização de técnicas avançadas de digitalização como ferramenta essencial de memória institucional, garantindo acesso público a episódios que, de outra forma, permaneceriam restritos a lembranças individuais ou registros incompletos.



