Setores-chave do agronegócio brasileiro ficam fora da tarifa extra de 25% dos EUA

Produtos estratégicos do agronegócio brasileiro – café em grão, suco de laranja concentrado e carne bovina in natura – foram excluídos da tarifa adicional de 25% anunciada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) em 1º de junho, mantendo abastecimento crítico ao mercado norte-americano e evitando pressões inflacionárias imediatas.

Contexto da medida e histórico recente de tarifas

O USTR divulgou uma lista de produtos sujeitos à nova alíquota de 25% após quase um mês do encontro entre os presidentes Luis Inácio Lula da Silva e Donald Trump em Washington. Embora o foco oficial da reunião tenha sido a cooperação em minerais de terras raras, a decisão tarifária sinaliza continuidade da postura protecionista dos Estados Unidos iniciada em agosto de 2025, quando um “tarifaço” de 50% atingiu diversos itens brasileiros.

Na ocasião, as exportações de café para o mercado norte-americano despencaram. Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) indicam embarques de 5,4 milhões de sacas em 2025, queda de 34% sobre 2024. Entre janeiro e abril de 2026, a retração continuou, com redução adicional de 41,5%.

O novo pacote tarifário, menos abrangente, preserva matérias-primas consideradas críticas para a economia dos EUA. Segundo o USTR, esses insumos não possuem oferta interna suficiente e, caso fossem sobretaxados, poderiam gerar desabastecimento ou altos repasses de custos ao consumidor final norte-americano.

Produtos isentos: relevância para as cadeias produtivas dos EUA

Café em grão manteve-se fora da lista por representar insumo básico para torrefadoras e pela baixa produção doméstica. De acordo com o Cecafé, inflação do produto chegou a ser “oito vezes acima da média” nos Estados Unidos durante o pico tarifário de 2025, fato que embasou a manutenção da exceção em 2026.

Suco de laranja concentrado também permaneceu isento. O Brasil responde por cerca de 55% do consumo norte-americano, proporção que subiu após adversidades climáticas na Flórida e no Texas. Em 2026, 49,6% das exportações brasileiras de suco tiveram os EUA como destino, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR).

No segmento de proteínas, carne bovina – incluindo cortes in natura, miúdos como língua e fígado – ficou de fora do adicional tarifário. O Brasil atingiu a cota anual de 52 mil toneladas na primeira semana de janeiro, evidenciando demanda constante. Em abril, os EUA representaram o segundo maior destino da proteína brasileira, atrás apenas da China.

As exceções excluem derivados específicos. Café solúvel, responsável por cerca de 10% das vendas brasileiras ao mercado norte-americano, permanece suscetível à nova tarifa e pode sofrer perda de competitividade.

Cronograma de consulta pública e próximos passos oficiais

A proposta do USTR ainda será submetida a processo de consulta pública. O cronograma estabelece:

  • 22 de junho – data-limite para pedidos de participação na audiência pública.
  • 1º de julho – término do prazo para envio de manifestações escritas.
  • 6 de julho – audiência presencial em Washington.
  • 15 de julho – divulgação da decisão final sobre implementação das tarifas.

Entidades setoriais brasileiras avaliam estratégias para influenciar o debate. O Cecafé prepara documentação técnica para a audiência, buscando extensão da isenção ao café solúvel e estabilidade regulatória de longo prazo. Já a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) optou por não comentar o texto preliminar.

Indicadores de impacto potencial no comércio bilateral

A manutenção de exceções reduz o risco imediato de ruptura de fluxos logísticos essenciais. Contudo, analistas monitoram três variáveis:

  1. Cotação internacional das commodities: eventual aumento dos preços globais de café, suco e carne pode elevar a sensibilidade do consumidor dos EUA, pressionando revisão tarifária futura.
  2. Capacidade de oferta norte-americana: recuperação da produção de laranja na Flórida ou expansão de criação bovina doméstica poderia motivar renegociação das exceções.
  3. Evolução do câmbio: valorização do real ante o dólar tende a reduzir competitividade do exportador brasileiro, amplificando os efeitos de qualquer tarifa residual.

Conclusão técnica

Até a deliberação final de 15 de julho, exportadores brasileiros de café em grão, suco de laranja e carne bovina permanecem livres da nova tarifa de 25%, garantindo continuidade de embarques e atenuando riscos inflacionários nos Estados Unidos. A consulta pública definirá se o escopo das isenções será mantido ou ajustado, especialmente para produtos derivados como café solúvel. O setor privado brasileiro concentra esforços técnicos para sustentar a exclusão, enquanto monitora possíveis alterações na política comercial norte-americana que possam reverter o cenário ao longo do segundo semestre de 2026.