Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) divulgaram nesta quinta-feira, 20 de junho de 2024, um estudo que indica que 64 % dos brasileiros que assumem o papel informal de solucionar crises familiares ou corporativas relatam sinais clínicos de exaustão emocional, caracterizando um fenômeno classificado como “sobrecarga do resolvedor”. O levantamento, conduzido em todas as regiões do país entre janeiro e março, ouviu 3 200 participantes adultos e aponta que o acúmulo de responsabilidades sem redes de apoio expõe esse grupo a riscos elevados de ansiedade, depressão e perda de produtividade.
Pressão invisível em lares e ambientes profissionais
O estudo da USP revela que o papel do “resolvedor” surge, na maioria das vezes, durante a infância, quando a pessoa percebe a necessidade de manter a estrutura familiar em funcionamento. Entre os entrevistados, 58 % declararam ter começado a assumir tarefas de mediação e cuidado antes dos 15 anos. Já na vida adulta, a função se amplia: no ambiente corporativo, esses indivíduos são vistos como referências imediatas para crises, planeamentos de última hora e negociações sensíveis.
A escritora Sheila Maria Prates, estudiosa do tema, explica que a construção dessa identidade ocorre “quando a escolha desaparece e a responsabilidade se torna automática”. Segundo Prates, a falta de delimitação de fronteiras pessoais favorece a perpetuação da lógica na qual o resolvedor raramente solicita ou recebe suporte.
Em âmbito profissional, consultorias de recursos humanos relatam que funcionários marcados por essa característica apresentam, em média, 22 % mais horas extras mensais que colegas de equipe. A consultora Aline Dantas, da Corporate Wellness Brasil, avalia que “a percepção de confiabilidade gera um ciclo no qual tarefas críticas são delegadas sempre às mesmas pessoas, intensificando o desgaste”.
Efeitos clínicos mapeados pela ciência
A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) relaciona a sobrecarga do resolvedor à síndrome de burnout, oficialmente classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como fenômeno ocupacional desde 2022. O diagnóstico reúne sintomas como fadiga persistente, insônia e dificuldade de concentração. No recorte do estudo da USP, 41 % dos participantes atendiam, simultaneamente, aos critérios de burnout e de transtorno de ansiedade generalizada.
O psiquiatra Dr. Renato Silva, membro da ABP, destaca que “a internalização da obrigatoriedade de estar disponível o tempo todo cria uma tensão basal que se manifesta em somatizações — como gastrites e cefaleias frequentes — e em alterações de humor”. De acordo com os dados, a prevalência de queixas somáticas é 35 % maior entre resolvedores comparados ao grupo-controle.
Casos extremos podem evoluir para quadros de despersonalização, quando o indivíduo perde a percepção de suas próprias necessidades. A velejadora Tamara Klink, citada em artigo recente do portal ND+, afirmou que “é incrível quanto tempo sobra quando a gente só precisa ajudar a si mesmo”, sintetizando a dificuldade enfrentada por quem, culturalmente, prioriza terceiros.
Imagem: Gerada IA ChatGPT
Estratégias institucionais e pessoais de mitigação
Consultores de saúde ocupacional recomendam que empresas adotem programas de apoio psicológico trimestral e revisem políticas internas que concentram tarefas críticas em colaboradores específicos. Na pesquisa da USP, organizações que instituíram rodízio de responsabilidades reduziram em 18 % o índice de afastamentos por motivos psiquiátricos em apenas seis meses.
No âmbito familiar, terapeutas sugerem a implementação de acordos de convivência que delimitem horários de descanso inegociáveis para o membro sobrecarregado. A psicóloga Dra. Mariana Almeida, coordenadora do Serviço de Psicoterapia Breve do Hospital das Clínicas, ressalta que “o ato de solicitar ajuda deve ser normalizado, pois representa não fraqueza, mas manutenção da saúde coletiva”.
Ferramentas de planejamento compartilhado, como agendas digitais de tarefas domésticas, também figuram entre as soluções apontadas. Segundo levantamento da startup de tecnologia assistiva Family Track, famílias que adotam divisão explícita de atividades reduzem em 27 % o tempo semanal dedicado a emergências não planejadas.
Conclusão técnica
A pesquisa divulgada pela Universidade de São Paulo confirma que a centralização de responsabilidades em indivíduos reconhecidos como “resolvedores” resulta em impactos mensuráveis à saúde mental e ao desempenho laboral. Dados da OMS e da ABP corroboram a correlação entre essa sobrecarga e o aumento de casos de burnout. Especialistas recomendam, como próximos passos, a adoção sistemática de políticas de redistribuição de tarefas, acompanhamento psicológico contínuo e campanhas educacionais que estimulem o pedido de auxílio. A efetividade dessas medidas será monitorada em estudos longitudinais programados para serem publicados a partir de 2025, ampliando a compreensão sobre mecanismos de prevenção e tratamento da sobrecarga do resolvedor.




