Superquarta: alívio geopolítico reduz risco de oferta, mas mantém inflação elevada e juros sob vigilância

Estados Unidos e Irã firmaram um entendimento preliminar para reabrir gradualmente o Estreito de Ormuz, diminuindo a probabilidade de novos choques de oferta de energia e provocando um rali imediato nos mercados globais. Petróleo em queda, bolsas em alta e dólar mais fraco marcaram a sessão seguinte ao anúncio, mas a persistência da inflação manteve aceso o debate sobre o ciclo de juros na chamada “Superquarta”, quando Fed, BCE, Banco do Japão, Banco da Inglaterra e Copom divulgam decisões quase simultâneas.

Reabertura de Ormuz: reação rápida, consequência prolongada

O acordo preliminar selado em 16 de junho de 2026 prevê a retomada integral da navegação no Estreito de Ormuz em três fases, condição vital para o fluxo de aproximadamente 20 % da produção mundial de petróleo. A expectativa de normalização do fornecimento derrubou o preço do Brent para US$ 77,30 por barril, queda superior a 6 % em dois dias.

O movimento reduziu prêmios de risco nos principais índices de ações: o S&P 500 subiu 1,8 %, enquanto o Euro Stoxx 50 avançou 1,5 %. No câmbio, o DXY caiu de 104,6 para 103,9 pontos. Apesar do alívio, analistas alertam que o ciclo inflacionário instalado durante meses de preços elevados de energia já contaminou cadeias de suprimento, frete marítimo e expectativas de custos empresariais.

Inflação resiliente e a postura do G4 de bancos centrais

No Banco Central Europeu, a resposta veio antes mesmo da trégua: elevação de 25 pontos-base na reunião de junho, primeira alta em três anos, ancorada na revisão das projeções de inflação para 3,1 % em 2026 e 2,7 % em 2027. O Banco da Inglaterra enfrenta dinâmica semelhante, com energia ainda pressionando o Índice de Preços ao Consumidor local acima da meta de 2 %. Já o Banco do Japão lida com inflação mais resistente e iene depreciado, mantendo a discussão sobre o fim de compras de títulos públicos.

O núcleo do debate recai sobre o Federal Reserve. O CPI de maio avançou 0,5 % no mês e 4,2 % em 12 meses, reinstalando a distância em relação à meta de 2 %. Somado a um payroll com criação de 172 mil vagas e taxa de desemprego em 4,3 %, o quadro de atividade forte reduz espaço para cortes. O mercado futuro reforçou a precificação de juros elevados até, pelo menos, meados de 2027.

A estreia de Kevin Warsh como presidente do Fed adiciona incerteza. Conhecido por críticas ao excesso de forward guidance, Warsh pode adotar comunicação mais sucinta, dando ênfase à dependência de dados e à flexibilidade para retomar altas se necessário.

Efeitos sobre o Brasil: Copom avalia risco fiscal e expectativas desancoradas

No ambiente doméstico, o entendimento entre EUA e Irã gerou apreciação do real para R$ 5,01 e retração da curva de juros curtos. Entretanto, o IPCA de maio subiu 0,58 %, acumulando 4,72 % em 12 meses, acima do teto da meta. As expectativas do Focus permanecem em 3,7 % para 2026, sinal de desancoragem.

O quadro fiscal continua o maior vetor de incerteza. Bloqueios adicionais de despesas e premissas amparadas em receitas extraordinárias fragilizam credibilidade, pressionando o prêmio de risco soberano. Nesse cenário, o Copom avalia duas alternativas principais:

  • Corte residual de 25 p.b., levando a Selic de 14,50 % para 14,25 %, seguido de mensagem que indicaria pausa prolongada.
  • Manutenção em 14,50 %, acompanhada de comunicado mais duro sobre inflação corrente, expectativas e conjuntura internacional.

Instituições financeiras de grande porte atribuem 60 % de probabilidade à manutenção, ponderando a necessidade de preservar credibilidade num contexto global de maior aversão a riscos fiscais.

Conclusão Técnica

O cessar-fogo em Ormuz remove um importante risco de oferta, mas não reverte o impulso inflacionário global já em curso. O G4 de bancos centrais tende a manter discurso conservador, reforçando juros altos por um período mais longo. Para o Brasil, o alívio nos preços de combustíveis pode aliviar pressões pontuais, porém expectativas acima da meta, núcleo de inflação elevado e fragilidade fiscal limitam espaço para cortes adicionais na Selic. A comunicação das autoridades monetárias, tanto no exterior quanto no país, será determinante para calibrar curvas de juros, câmbio e prêmios de risco nos próximos trimestres.