Tensões em Ormuz e energia cara limitam novos cortes da Selic

O petróleo sustentado acima de US$ 110 por barril, somado ao impasse geopolítico no Estreito de Ormuz e à piora das expectativas inflacionárias, levou o Comitê de Política Monetária a reduzir o ritmo de flexibilização e a sinalizar que o ciclo de cortes da Selic — agora em 14,50% a.a. — pode ser interrompido caso os choques externos e internos persistam.

Choque externo: combustível caro e bloqueio marítimo elevam o risco inflacionário

A manutenção de um duplo bloqueio no Estreito de Ormuz por Estados Unidos e Irã mantém a via marítima responsável por quase 20% do comércio global de petróleo sob tensão. Mesmo após um cessar-fogo parcial, a não participação direta da Marinha norte-americana no Projeto Liberdade elevou a incerteza sobre a segurança das rotas de navegação. Como resultado, o barril do Brent permanece acima de US$ 110, patamar que adiciona pressão tanto à inflação corrente quanto às projeções futuras.

De acordo com estimativas de bancos internacionais, cada avanço de US$ 10 na cotação do petróleo aumenta em até 0,30 p.p. a inflação global de curto prazo. No Brasil, onde combustíveis pesam cerca de 6% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o repasse ocorre de forma rápida, amplificando os efeitos de segunda ordem — notadamente sobre fretes e alimentos.

Reação do Banco Central: ata mais cautelosa e horizonte de projeção alterado

Frente a esse ambiente, o Banco Central publicou ata que confirmou a elevação da estimativa de inflação para o quarto trimestre de 2027 de 3,0% para 3,5%. Esse aumento de 50 p.b. em apenas quatro meses evidencia deterioração relevante das expectativas, fator crítico para a condução prospectiva da política monetária.

Embora o comunicado preserve a possibilidade de cortes graduais, a autoridade monetária condiciona qualquer flexibilização adicional ao arrefecimento dos preços de energia e à estabilização das projeções de médio prazo. Caso o choque de oferta persista, o colegiado admite a necessidade de uma pausa técnica para preservar a credibilidade do regime de metas e evitar realinhamento cambial excessivo.

Analistas de mercado já revisam suas curvas de juros: enquanto em abril algumas casas projetavam Selic em 13,25% a.a. ao fim de 2026, agora crescem os cenários que apontam teto entre 13,75% a.a. e 14,00% a.a., contemplando inclusive um interregno nos encontros de agosto ou outubro.

Variáveis domésticas: resultado fiscal recorde e Desenrola 2.0 complicam o quadro

No front interno, o déficit nominal em 12 meses alcançou R$ 1,2 trilhão, maior valor da série histórica e 28% acima do registrado no mesmo período de 2025. O aumento da relação dívida/PIB pressiona a parte longa da curva, encarecendo o custo de captação do governo e das empresas.

Paralelamente, o lançamento do Desenrola 2.0 prevê renegociação de até R$ 140 bilhões em dívidas de famílias. Embora o programa possa reduzir a inadimplência de curto prazo, o estímulo à demanda embute risco de reaceleração inflacionária num momento em que a oferta de bens e serviços sofre com custos maiores de transporte e energia.

Impactos sobre câmbio, renda fixa e Bolsa

A conjunção de petróleo caro e taxa básica elevada tem provocado apreciação pontual do real, uma vez que o diferencial de juros torna ativos domésticos mais atraentes em relação a pares emergentes. Mesmo assim, a volatilidade implícita das opções de dólar avançou para 14%, sinalizando prêmio de risco associado a eventos exógenos.

Na renda fixa, a parte curta da curva ajustou somente 15 p.b. desde a decisão do Copom, enquanto vértices acima de cinco anos subiram 40 p.b., refletindo a incerteza fiscal. Setores intensivos em capital, como tecnologia e consumo discricionário, sentem maior compressão de múltiplos, ao passo que empresas de upstream petrolífero e de papel-celulose se beneficiam da combinação de commodities firmes e taxa de câmbio relativamente estável.

Conclusão técnica

A persistência do bloqueio em Ormuz, aliada ao petróleo acima de US$ 110, cria um choque de oferta que se propaga rapidamente para os índices de preços domésticos. Esse cenário, combinado ao déficit fiscal recorde e às medidas de estímulo ao crédito, leva o Banco Central a restringir o espaço para cortes adicionais da Selic. Eventuais reduções futuras dependerão da moderação dos preços de energia, da recomposição das expectativas inflacionárias e da ancoragem das contas públicas. Até lá, a política monetária tende a permanecer em modo cauteloso, com decisões cada vez mais dependentes de dados e sensíveis a surpresas no front geopolítico.