Introdução (Lead): Pesquisas sobre a Suíte Cambirela confirmam que o Morro do Cambirela, em Palhoça, preserva estruturas de um sistema vulcânico que entrou em erupção há cerca de 580 milhões de anos, quando o supercontinente Gondwana ainda se formava; análises indicam temperaturas magmáticas de até 968 °C e erupções fissurais capazes de liberar grandes volumes de material silícico.
1. Evidências geológicas do período Neoproterozoico
O estudo Vulcanismo ediacarano pós-colisional de alta sílica associado ao Batólito de Florianópolis, Cinturão Dom Feliciano, divulgado na plataforma Science Direct, descreve a Sequência Vulcânica Silícica de Cambirela como a única manifestação vulcânica neoproterozoica identificada em Santa Catarina. A área de aproximadamente 88 km² contém rochas vulcânicas e subvulcânicas que se mantiveram relativamente intactas desde o Ediacarano. Análises isotópicas posicionam a atividade em 580 ± 5 milhões de anos, coincidindo com a consolidação dos blocos crustais que originaram Gondwana.
As amostras coletadas exibem texturas finas e elevada concentração de sílica, sugerindo magmas evoluídos gerados em zonas de espessamento crustal. Termometria mineral indica que a cristalização ocorreu entre 940 °C e 968 °C, valores compatíveis com vulcanismo explosivo de alto índice viscoso.
2. Funcionamento de um sistema vulcânico fissural
Diferentemente de edifícios cônicos clássicos, o Morro do Cambirela se formou a partir de erupções em fraturas lineares na crosta. Esses eventos fissurais favoreceram a emissão de colunas piroclásticas contínuas, capazes de gerar espessas camadas de ignimbritos. A ausência de caldeiras visíveis decorre da rápida efusão de lavas reolíticas que, ao solidificarem, criaram depósitos densamente soldados.
No modelo proposto pelos pesquisadores, um reservatório raso alimentava dutos verticais distribuídos ao longo de alinhamentos NW–SE, correspondentes à tectônica sincolisional do Cinturão Dom Feliciano. O resfriamento subsequente originou corpos plutônicos associados, interligando litologias superficiais (vulcânicas) e profundas (plutônicas) dentro de um único sistema plutono-vulcânico.
Imagem: Prefeitura de Palhoça
3. Extensão da atividade para o Morro dos Cavalos
Investigação conduzida pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), detalhada no trabalho Petrografia do Sistema Plutono-Vulcânico da Suíte Cambirela no Morro dos Cavalos, ampliou o raio de estudos para costões litorâneos adjacentes. Amostras microscópicas comprovaram a presença de ignimbritos fortemente soldados, evidência de erupções explosivas que projetaram nuvens ardentes de cinzas e fragmentos litificados após o impacto com o solo.
Fragmentos ricos em feldspatos alcalinos e quartzo confirmam que o magma possuía composição riolítica. A simultaneidade de rochas vulcânicas e plutônicas sugere câmaras magmáticas a profundidades máximas de 15 km, onde intercâmbio térmico acelerado viabilizou a solidificação diferencial dos cristais.
Conclusão Técnica
Os levantamentos multidisciplinares consolidam o Morro do Cambirela como um registro singular do vulcanismo fissural de alta sílica ligado à orogênese do Cinturão Dom Feliciano. A associação entre depósitos ignimbríticos, corpos graníticos e termometria elevada comprova a existência de um antigo sistema plutono-vulcânico, extinto há meio bilhão de anos. Estudos futuros visam mapear com maior resolução isotópica as fases eruptivas e avaliar possíveis correlações com outras províncias neoproterozoicas da América do Sul.




