Tesouro Direto lançou nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, o Tesouro Reserva, primeiro título público com negociação 24 horas por dia e sete dias por semana, rendimento de 100 % da taxa Selic e aplicação mínima de R$ 1, iniciativa que busca ampliar o acesso dos brasileiros a uma opção segura e líquida para a formação de reserva de emergência.
Arquitetura do título: parâmetros operacionais e diferenciais
Desenvolvido pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3, o Tesouro Reserva — oficialmente Letra Financeira do Tesouro série TD1 — replica a mecânica do já conhecido Tesouro Selic, porém adiciona atributos voltados à acessibilidade e à previsibilidade.
Daniel Leal, secretário do Tesouro Nacional, sintetizou os três pilares do produto durante a cerimônia de toque de campainha na bolsa: simplicidade, segurança e acessibilidade. Os principais componentes técnicos são:
• Liquidez ininterrupta: ordens de compra e venda podem ser executadas a qualquer hora, inclusive madrugadas, fins de semana e feriados, graças à infraestrutura contínua da B3.
• Ausência de marcação a mercado: o preço do papel não oscila diante das variações diárias da curva de juros, eliminando risco de perda contábil em resgates antecipados.
• Investimento mínimo simbólico: a aplicação parte de R$ 1, contrapondo-se ao piso atual de R$ 189,03 do Tesouro Selic (1 % do valor de face).
A remuneração permanece referenciada à Selic, atualmente em 14,5 % ao ano. A tributação segue a tabela regressiva do Imposto de Renda sobre renda fixa, variando de 22,5 % a 15 % conforme o prazo de permanência, com retenção automática na fonte. Para resgates até 30 dias existe a incidência decrescente de IOF.
Estratégia de distribuição e metas de alcance populacional
Nesta fase inicial, a comercialização está restrita aos correntistas do Banco do Brasil (BB). O vice-presidente de negócios de atacado da instituição, Francisco Lassalvia, prevê que a exclusividade temporária fortaleça a relação com clientes multibancarizados ao centralizar a alocação de liquidez diária na plataforma do BB.
Apesar da limitação de canais, o Tesouro Nacional negocia com outras grandes instituições para ampliar a oferta do título. O plano, segundo Leal, é atingir 10 milhões de investidores em até quatro anos, multiplicando por mais de três a atual base de aproximadamente 3 milhões de CPFs cadastrados no Tesouro Direto.
O foco declarado é a população que ainda não constituiu colchão financeiro. Dados do órgão indicam que mais de 30 % dos brasileiros não possuem qualquer valor reservado para emergências — lacuna que o Tesouro Reserva procura preencher ao combinar risco soberano com liquidez instantânea.
Imagem: Internet
Competitividade frente à poupança e caixinhas digitais
O novo título chega em um cenário em que 22 % dos brasileiros mantêm recursos na caderneta de poupança, produto cujo retorno máximo equivale a 0,5 % ao mês + TR (aproximadamente 6,17 % ao ano). Sob a Selic de 14,5 %, o Tesouro Reserva apresenta rendimento bruto cerca de 8 pontos percentuais superior, mesmo após o desconto de imposto.
Já as “caixinhas” de bancos digitais costumam entregar rentabilidade de 100 % do CDI e contam com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) limitada a R$ 250 mil por instituição. O Tesouro Reserva, por ser dívida soberana, carrega risco considerado mínimo no mercado doméstico e não possui teto de cobertura.
Outro atributo comparativo é a liquidez efetivamente diária. Enquanto CDBs e fundos de renda fixa dependem de dias úteis para liquidação, o Tesouro Reserva libera recursos em qualquer momento, alinhado à premissa de disponibilidade imediata necessária em emergências de saúde, desemprego ou despesas imprevistas.
Exemplo ilustrativo: um aporte de R$ 1.000 mantido por 12 meses, à Selic hipotética de 14,5 %, resultaria em saldo líquido aproximado de R$ 1.119,62 no Tesouro Reserva (considerando IR de 17,5 %), contra R$ 1.061,70 na poupança, diferença de cerca de R$ 58 no período.
Conclusão técnica
O Tesouro Reserva consolida-se como instrumento voltado à reserva de emergência ao unir rentabilidade atrelada à Selic, risco soberano e operações 24 h sem marcação a mercado. A limitação inicial de distribuição ao Banco do Brasil deve ser superada conforme avançam as tratativas com outras instituições, etapa crucial para atingir a meta de 10 milhões de investidores até 2030. Caso as condições de liquidez e estabilidade operacional se mantenham, o título tende a alterar o eixo de preferência do pequeno investidor, deslocando parte dos recursos hoje concentrados na poupança e em aplicações bancárias para o mercado de títulos públicos federais.




