Lucro da JBS despenca 55,8% no 1T26 e pressiona BDRs após margens negativas nos EUA

A JBS registrou queda de 55,8 % no lucro líquido do primeiro trimestre de 2026, para US$ 221 milhões, resultado que derrubou seus recibos de ações na B3 em mais de 5 % e acentuou a perda de 6,6 % dos papéis na NYSE, reflexo direto de margens negativas na divisão norte-americana de carne bovina, mesmo com avanço das operações no Brasil.

Balanço financeiro detalhado do 1T26

A receita líquida consolidada da JBS somou US$ 21,61 bilhões, crescimento de 11 % frente ao mesmo período de 2025, impulsionado pelo câmbio favorável e pela demanda consistente em mercados emergentes. Por outro lado, o Ebitda ajustado recuou 26 %, para US$ 1,13 bilhão, comprimindo a margem de rentabilidade em 2,5 pontos percentuais. No recorte regional, a unidade North America Beef, responsável por cerca de um terço do faturamento, apresentou Ebitda negativo de US$ 267 milhões e margem operacional de -3,7 %. O contraste ficou evidente na divisão JBS Brasil, cuja margem permaneceu positiva graças à maior disponibilidade de gado e à continuidade dos embarques para a Ásia.

Os custos, especialmente com matéria-prima bovina nos Estados Unidos, avançaram a níveis recordes. O Departamento de Agricultura norte-americano (USDA) estima que o rebanho do país caiu ao menor patamar em 63 anos, elevando o preço médio do boi gordo em 17 % na comparação anual. Esse cenário contribuiu decisivamente para o recuo do lucro líquido, mesmo considerando efeitos pontuais, como a greve em um frigorífico no estado do Colorado e paradas programadas de plantas da subsidiária Pilgrim’s Pride.

Pressão operacional na América do Norte e mitigadores no Brasil

Bancos de investimento avaliaram que o desafio nos EUA foi “maior que o esperado”. Relatório do BTG Pactual destaca que a extensão da queda já estava embutida nas projeções, mas a magnitude negativa da margem bovina norte-americana surpreendeu. O Itaú BBA reforçou a necessidade de isolar eventos temporários — como greves — de tendências estruturais, alertando que o ciclo pecuário desfavorável pode se estender até 2027.

No lado positivo, a divisão Seara sustentou margens ao ampliar vendas de processados e de carnes suína e de aves no mercado interno. A valorização de 9 % do dólar ante o real entre janeiro e março favoreceu a competitividade dos embarques brasileiros, compensando parte das perdas na América do Norte. Ainda assim, o ganho não foi suficiente para equilibrar o consolidado.

Outro ponto de atenção é a execução do programa de ampliação de capacidade da Pilgrim’s Pride, que paralisou três fábricas de frango por cerca de duas semanas para modernização e mudança de mix. A companhia projeta retorno operacional pleno dessas plantas no segundo semestre, mas analistas alertam que o atraso no ramp-up pode elevar o peso dos custos fixos no próximo trimestre.

Reação do mercado e implicações futuras

Na abertura do pregão de 13 de maio, os BDRs JBSS32 recuaram 5,47 %, enquanto as ações listadas em Nova York cederam 6,68 %. O volume negociado superou a média mensal, indicando movimento de realocação de carteiras após os números fracos. Relatórios de casas internacionais ressaltam que, apesar do momento adverso, a diversificação geográfica da companhia continua sendo um ponto de defesa. Mesmo assim, a perspectiva de custos altos com gado nos EUA e de ajustes regulatórios na União Europeia — que prepara restrições a compras de proteína bovina brasileira — adiciona incerteza à tese de investimento no curto prazo.

Agentes do mercado de futuros em Chicago precificam continuidade da pressão no preço do gado nos próximos trimestres, com contratos para agosto de 2026 indicando avanço adicional de 4 %. Caso o ciclo do rebanho não se reverta, analistas projetam que a margem norte-americana de carne bovina pode permanecer negativa até meados de 2027. Em paralelo, a companhia revisa seu plano de investimentos para priorizar eficiência operacional, reduzindo em US$ 200 milhões o capex originalmente previsto para 2026.

Conclusão técnica

A queda de 55,8 % no lucro da JBS no 1T26 decorre, sobretudo, da combinação de custos recordes de gado nos Estados Unidos, paralisações produtivas e margens pressionadas na North America Beef. O desempenho resiliente no Brasil e na divisão de processados amenizou, mas não neutralizou, o impacto financeiro. Para os próximos trimestres, o monitoramento do ciclo pecuário norte-americano, o retorno pleno das plantas da Pilgrim’s Pride e eventuais mudanças regulatórias na União Europeia serão determinantes para a trajetória das margens consolidadas e para o comportamento dos BDRs JBSS32 no mercado brasileiro.