Galípolo alerta para sinais de estagflação e reconhece limites do Banco Central frente a choques de oferta

Durante a Conferência Anual do Banco Central do Brasil, em 13 de maio de 2026, o presidente Gabriel Galípolo admitiu que a autoridade monetária enfrenta um cenário de sinais de estagflação provocado por sucessivos choques de oferta, fenômeno para o qual o atual arcabouço de política monetária não foi concebido.

Conflitos geopolíticos e clima intensificam pressões inflacionárias

Na apresentação, Galípolo observou que a escalada dos preços globais de energia, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio, elevou o barril de petróleo a patamares próximos de US$ 110. Paralelamente, eventos climáticos extremos comprimem a oferta de alimentos, ampliando a pressão sobre índices de preços. Esse conjunto de choques, segundo o presidente do BC, difere da “inflação de demanda” tradicional; trata-se de um desequilíbrio originado pela restrição de oferta, capaz de desacelerar o crescimento enquanto mantém a alta dos preços, quadro clássico de estagflação.

Ele lembrou que esta é a quarta perturbação significativa na oferta em menos de seis anos, período que inclui a pandemia de 2020, a guerra na Ucrânia em 2022 e as quebras de safra de 2024. A repetição desses choques enfraquece a eficácia dos modelos que embasam a atuação dos bancos centrais, tradicionalmente calibrados para lidar com excesso de demanda.

“O barco foi desenhado para outra tempestade”, diz Galípolo

Ao reconhecer a inadequação das ferramentas convencionais, Galípolo comparou o Banco Central a uma embarcação construída para enfrentar tempestades de natureza diferente. A taxa básica de juros, principal instrumento de política monetária, tem resposta limitada quando a inflação decorre da escassez de insumos e não da expansão do consumo. Mesmo assim, o dirigente assegurou que a instituição continuará “vigilante aos efeitos de segunda ordem” — isto é, ao risco de que reajustes pontuais se disseminem por expectativas, salários e contratos de longo prazo.

Para mitigar essas repercussões, o Comitê de Política Monetária (Copom) monitora indicadores como a expectativa de inflação em 12 e 24 meses, bem como a indexação de acordos coletivos. Caso perceba difusão persistente, o BC poderá prolongar a atual postura de aperto monetário, mesmo com atividade enfraquecida.

Credibilidade em xeque diante da percepção da população

O presidente destacou a disparidade entre os índices oficiais, que mostram inflação acumulada de 5,3 % em doze meses, e a percepção do consumidor, mais afetada por itens voláteis como energia e alimentos. Essa “dissonância”, afirmou Galípolo, ameaça a credibilidade das autoridades monetárias e dificulta o ancoramento das expectativas. Para reduzir o ruído, o Banco Central intensificará a comunicação sobre a natureza dos choques e os limites de atuação da política de juros.

Paralelamente, a autarquia coopera com órgãos fiscais e reguladores setoriais para acelerar medidas de oferta, como a liberação de estoques reguladores, a ampliação de linhas de crédito à cadeia agrícola e o incentivo a investimentos em infraestrutura energética. Embora tais ações não caibam ao BC diretamente, compõem a estratégia macroeconômica voltada a suavizar pressões de custo.

Separar efeitos temporários dos duradouros é o principal desafio

Segundo Galípolo, dissociar impactos transitórios — como a alta imediata do petróleo — de efeitos permanentes é crucial para calibrar a resposta da política monetária. O modelo interno do BC estima que 60 % do impacto do petróleo sobre o IPCA tende a se dissipar em 12 meses, mas o restante pode tornar-se estrutural se houver repasse para fretes, fertilizantes e, em seguida, para alimentos processados.

Nesse contexto, o Copom intensificou o uso de nowcasting para variáveis de oferta e elevou a frequência de reuniões técnicas com áreas responsáveis por contas externas, energia e clima. O objetivo é antecipar inflexões que possam exigir ajustes na trajetória da Selic, atualmente em 10,25 % a.a.

Conclusão Técnica

A fala de Gabriel Galípolo consolida a avaliação de que o Brasil enfrenta um quadro híbrido de inflação com atividade moderada, alimentado por choques externos. Embora reconheça a limitação das ferramentas tradicionais, o Banco Central afirma manter o compromisso com o controle de preços e a observação constante de efeitos de segunda ordem. Nos próximos meses, a autoridade monetária deve continuar a comunicar diferenças entre inflação de demanda e de oferta, revisar modelos de projeção e, se necessário, prolongar o ciclo de juros altos para preservar expectativas ancoradas.