A Polícia Federal afastou o delegado Guilherme Figueiredo Silva da investigação sobre um possível desvio milionário no INSS, decisão efetivada no início de maio e que levou o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a solicitar esclarecimentos formais nesta sexta-feira (15).
Mudança no comando e reação do STF
Silva, então chefe da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários, coordenava o caso desde que o inquérito foi remetido ao STF. A retirada de seu nome coincidiu com a redistribuição de procedimentos internos para outros delegados da área especializada. Até o momento, a Superintendência-Geral da PF não divulgou se a substituição partiu de pedido pessoal ou de reestruturação estratégica.
A movimentação motivou o despacho do ministro André Mendonça, que fixou prazo para a corporação explicar os critérios da mudança. Fontes do Tribunal indicam que a exigência busca preservar a continuidade das diligências já autorizadas, como quebras de sigilo bancário e fiscal.
Frentes de apuração e nomes envolvidos
O núcleo original do inquérito mira o empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, acusado de liderar fraudes na concessão de benefícios previdenciários. Estimativas preliminares apontam para prejuízo ainda em cálculo, mas classificado como significativo para os cofres da União.
No curso das investigações, surgiram menções a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República. O delegado agora substituído solicitou e obteve autorização do STF para a quebra de sigilo bancário de Lulinha, medida contestada por sua defesa, que alega ausência de base legal para mantê-lo no foco da apuração.
Relatórios de inteligência também destacaram transações supostamente atípicas envolvendo a empresária Roberta Moreira Luchsinger, apontada como possível elo financeiro entre Lulinha e Antunes. Um dos documentos cita repasse de R$ 1,5 milhão às contas da empresária, valor classificado como indício de ocultação de recursos.
Estrutura do suposto esquema de fraudes
Investigadores descrevem uma operação metodicamente organizada para liberar aposentadorias irregulares mediante pagamento de vantagens indevidas. Entre os elementos sob análise estão:
- Utilização de servidores internos para agilizar concessões;
- Emprego de laranjas para saque de benefícios;
- Possível remessa de parte dos valores a contas vinculadas ao núcleo empresarial de Antunes.
O inquérito inclui perícia em sistemas do INSS para mapear logins e acessos suspeitos, além da reconstituição de fluxos financeiros em cooperativas de crédito regionais. Técnicos estimam que cada benefício fraudado possa gerar repasse médio de R$ 2 mil a R$ 3 mil mensais, multiplicado por centenas de registros analisados.
Imagem: Internet
Defesa dos investigados e linhas de contestação
Os advogados de Lulinha sustentam que as citações a seu nome provêm apenas de depoimentos indirectos, sem comprovação documental. Em manifestação ao STF, confirmaram viagem a Portugal custeada por Antunes para avaliar projeto no setor de cannabis medicinal, mas negam assinatura de contratos ou recebimento de valores.
A equipe de defesa de Antunes, por sua vez, argumenta que a operação financeira com Luchsinger se restringiu a consultoria empresarial. Já a própria Luchsinger encaminhou nota na qual afirma ter adquirido joias de luxo no valor de R$ 474,5 mil com recursos próprios, rechaçando vínculo com desvios previdenciários.
Próximos passos processuais
Com o novo delegado designado, a PF deve:
- Revisar as diligências pendentes aprovadas pelo STF, incluindo análise de extratos bancários;
- Concluir perícia contábil para estimar o montante exato do prejuízo ao INSS;
- Ouvir novamente delatores para sanar contradições sobre repasses ao suposto grupo;
- Redigir relatório final recomendando eventual indiciamento ou arquivamento parcial.
O STF acompanhará o cronograma e poderá determinar novas medidas cautelares caso identifique riscos à coleta de provas. Todas as decisões referentes a quebras de sigilo ou pedidos de prisão permanecem sob relatoria do ministro André Mendonça.
Conclusão Técnica
A troca de delegado em um estágio avançado da investigação impôs à Polícia Federal a obrigação de comprovar a continuidade metodológica do inquérito, preservando as evidências já colhidas. Enquanto o Supremo aguarda justificativas formais, a corporação segue analisando movimentações financeiras, depoimentos e perícias digitais para definir se apresentará denúncia contra os investigados ou concluirá pela ausência de materialidade. Novas diligências, caso autorizadas, tendem a se concentrar na rastreabilidade de valores e na validação de contratos empresariais relacionados ao possível esquema de fraudes previdenciárias.




