Investigadores da Polícia Federal comunicaram à defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, em 10 de julho, que a segunda proposta de colaboração premiada apresentada no âmbito da Operação Compliance Zero foi rejeitada por não trazer fatos inéditos nem elementos capazes de avançar as apurações ligadas à venda de carteiras de crédito supostamente fraudulentas ao Banco de Brasília (BRB).
Contexto da Operação Compliance Zero
Deflagrada em dezembro de 2023, a Operação Compliance Zero investiga um esquema de negociação de carteiras de crédito com indícios de sobrepreço e ausência de lastro financeiro. Os contratos teriam sido firmados entre o BRB e empresas controladas pelo Banco Master, presidido por Daniel Vorcaro. As diligências iniciais apontaram prejuízo potencial superior a R$ 200 milhões, valor que ainda passa por perícia contábil.
Em 4 de março, durante a terceira fase da operação, Vorcaro foi preso preventivamente sob suspeita de liderar a estrutura societária utilizada para ocultar a origem dos créditos negociados. Já em abril, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi detido por suposta participação na aprovação dos contratos investigados.
Detalhes da segunda proposta rejeitada
A nova tentativa de delação foi remetida à Polícia Federal pela defesa de Vorcaro no final de junho. De acordo com fontes internas da corporação, os anexos continham 112 páginas compostas por e-mails corporativos, minutas de contratos e registros de transferências bancárias que, segundo o investigado, comprovariam a atuação de intermediários políticos na autorização das operações.
Após análise técnica da Divisão de Repressão a Crimes Financeiros, peritos concluíram que:
- Os documentos já constavam em relatórios de inteligência produzidos em 2023;
- Não foram apresentados novos beneficiários ou valores ainda desconhecidos;
- As narrativas oferecidas repetiam linhas de investigação previamente abertas pela PF.
Com base nessas constatações, a coordenação da operação manteve o entendimento de que a colaboração não agregaria celeridade nem robustez probatória, optando pelo indeferimento comunicado em 10 de julho.
Nova aposta da PF: Paulo Henrique Costa
A rejeição imediata da proposta de Vorcaro redirecionou o foco dos investigadores para o ex-presidente do BRB. Detido desde 22 de abril, Paulo Henrique Costa vem estruturando seu próprio pedido de delação com apoio de advogados especializados em crimes financeiros.
Imagem: Reprodução
Fontes da Superintendência Regional em Brasília avaliam que Costa, por ter participado diretamente das deliberações internas do banco público, detém informações privilegiadas sobre:
- Fluxo de aprovações no Comitê de Crédito;
- Participação de servidores federais na liberação dos recursos;
- Possíveis repasses a agentes políticos para viabilizar as transações.
A expectativa é de que os anexos de Costa sejam formalizados até o fim de julho, podendo alterar o rumo da investigação caso apresentem elementos inéditos e documentalmente comprovados.
Status na PGR e próximos passos
Paralelamente à negativa da Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República (PGR) analisa uma terceira vertente de colaboração proposta por Daniel Vorcaro. A manifestação foi protocolada em 15 de maio e aguarda parecer da Secretaria de Função Penal Originária. Se a PGR identificar utilidade pública nos relatos, poderá encaminhar recomendação à PF para reabrir as negociações sob novas bases.
No âmbito processual, Vorcaro permanece no Complexo Penitenciário da Papuda, em cela destinada a réus sem condenação definitiva. A defesa planeja renovar o pedido de prisão domiciliar, alegando quadro clínico de hipertensão e necessidade de acompanhamento médico contínuo. O pleito será apreciado pelo Tribunal Regional Federal da 1.ª Região.
Conclusão Técnica
A segunda recusa da Polícia Federal à delação de Daniel Vorcaro consolida a estratégia da corporação de privilegiar colaborações capazes de oferecer provas inexploradas. A possível adesão de Paulo Henrique Costa ao mecanismo de delação premiada desponta como linha investigativa prioritária, com potencial de destravar informações sobre a cadeia de decisões que levou à aquisição das carteiras de crédito pelo BRB. Enquanto isso, a PGR mantém em análise a proposta de colaboração do banqueiro, decisão que poderá redefinir o cenário caso sejam identificados benefícios processuais para o Estado. Até lá, as investigações seguem concentradas na perícia contábil dos contratos e no mapeamento de fluxos financeiros associados ao esquema.




