Brasil participa da cúpula do G7 na França com foco em conflitos globais e tarifas dos EUA

A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na reunião do G7, marcada para esta semana em Évian-les-Bains, foi confirmada pela França e cria uma janela estratégica para o Brasil dialogar sobre conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, além de negociar a reversão de novas tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Origem e peso atual do G7

Formado em 1975, o G7 reúne Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão. Nas décadas de 1980 e 1990 o grupo concentrava mais de 60 % do Produto Interno Bruto mundial. Hoje, com o crescimento de economias emergentes, esse índice recuou para cerca de 45 %, segundo dados do Fundo Monetário Internacional de 2023. Mesmo com a perda relativa de participação, o fórum permanece decisivo na definição de políticas econômicas, tecnológicas e de segurança.

Quando os chefes de governo chegam a consensos, há repercussões em cadeias globais de suprimentos, fluxos financeiros e padrões regulatórios. Por essa razão, nações fora do bloco, como Brasil, Índia e África do Sul, são convidadas de forma recorrente para ampliar legitimidade a decisões que impactam o sistema internacional.

Razões do convite e objetivos brasileiros

O Palácio do Eliseu enviou convite oficial ao Brasil em janeiro. Entre os determinantes estão o peso do agronegócio brasileiro — responsável por 28 % das exportações do país em 2023 — e a liderança regional em temas de segurança alimentar e transição energética. Além disso, Brasília exerce papel ativo na construção de posições do Sul Global em fóruns como G20 e ONU.

De acordo com a Secretaria de Assuntos Estratégicos, três metas norteiam a participação brasileira:

  • Reverter as tarifas norte-americanas sobre aço e alumínio, que subiram de 3 % para 25 % em maio, afetando exportações avaliadas em US$ 4,2 bilhões anuais.
  • Obter apoio financeiro para projetos de transição energética, principalmente no corredor de hidrogênio verde do Nordeste, estimado em US$ 10 bilhões até 2030.
  • Fortalecer iniciativas de combate à fome e ampliar a dotação do Fundo de Resposta Rápida a Crises Alimentares, capitaneado por FAO e Banco Mundial.

Conflitos que dominam a pauta em Évian-les-Bains

A agenda oficial contém 22 itens, mas dois conflitos concentram as atenções:

Rússia versus Ucrânia: o presidente Volodymyr Zelensky confirmou participação. O custo estimado da guerra chegou a US$ 350 bilhões, segundo a Comissão Europeia. Países do G7 discutem aumentar sanções e criar um mecanismo para usar juros de ativos russos congelados em favor de Kiev.

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Imagem: gerada IA

Oriente Médio: tensões entre Estados Unidos, Irã, Israel e Hezbollah elevam riscos de interrupção no fornecimento de petróleo. O grupo analisa medidas de estabilização do mercado, incluindo possíveis liberações coordenadas de reservas estratégicas.

Nesse contexto, o Itamaraty pretende reiterar a defesa do cessar-fogo humanitário e a criação de corredores de exportação de grãos pelo Mar Negro, tema que afeta preços de alimentos em mercados emergentes.

Impacto das políticas comerciais dos EUA e o fator Trump

Desde o início do atual mandato de Donald Trump, Washington reforçou a política industrial interna. Em 14 de maio, o governo norte-americano elevou tarifas de 10 % para até 100 % sobre veículos elétricos chineses e reajustou alíquotas para setores de energia limpa, aço e alumínio. O Brasil, embora não citado nominalmente, teve exportações afetadas por ajustes metodológicos de origem.

A equipe econômica brasileira calcula perda potencial de R$ 9,1 bilhões em receitas externas neste ano. Por isso, a diplomacia busca diálogo direto ou, na ausência dele, apoio de França e Alemanha para pressionar pela revisão das barreiras durante a fase de consultas na Organização Mundial do Comércio.

Conclusão técnica e próximos passos

A participação do Brasil na cúpula de Évian-les-Bains reúne três dimensões cruciais: segurança geopolítica, negociações tarifárias e transição energética. Mesmo sem assento permanente, o país utiliza o encontro para manter diálogo com potências centrais, mitigar impactos de medidas protecionistas e influenciar a formulação de respostas multilaterais a conflitos. Os resultados imediatos dependerão de reuniões bilaterais de bastidores, sobretudo com autoridades dos EUA. Caso sejam criados grupos de trabalho sobre tarifas ou segurança alimentar, a chancelaria brasileira pretende integrar-se já no segundo semestre, quando Brasília sediará eventos preparatórios do G20 2025.