Aperto de mão que movimenta 40% do PIB mundial: o que Trump e Xi podem decidir em Pequim

Introdução (Lead):

Agendado para 13 de maio de 2026, o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim reúne delegações que respondem por cerca de 40 % da atividade econômica global e pode redesenhar tarifas, cadeias de suprimentos minerais e o fluxo internacional de petróleo em apenas 48 horas de negociações.

1. Da visita de 2017 à trégua de Busan: uma cronologia de tensões e ajustes

A última presença de um presidente norte-americano na China ocorreu em 2017, quando Trump realizou a chamada “visita de Estado plus”. Desde então, as relações bilaterais atravessaram três eixos de atrito: uma guerra comercial que elevou tarifas a até 145 %, a pandemia de 2020-2021 e a recente crise no Irã, que ameaçou o Estreito de Ormuz. O primeiro passo para a reaproximação surgiu em outubro de 2025, na cúpula de Busan, Coreia do Sul, onde os dois países firmaram uma trégua temporária sobre tarifas e propriedade intelectual. O encontro desta semana é visto como a oportunidade de converter o armistício provisório em acordo estruturado.

2. Interesses dos Estados Unidos: tarifas, energia e respaldo corporativo

Washington chega a Pequim pressionado por um índice de desaprovação doméstica de 62 % e pelo encarecimento do petróleo após o fechamento do Estreito de Ormuz. Na bagagem, Trump leva executivos de companhias que somam centenas de bilhões de dólares de faturamento anual. Entre eles:

  • Kelly Ortberg, presidente da Boeing, negociando um contrato para 500 jatos 737 MAX;
  • Jane Fraser, do Citigroup, articulando maior participação do setor financeiro norte-americano no mercado chinês;
  • Representantes da Nvidia, Apple e ExxonMobil, em busca de insumos críticos e previsibilidade regulatória.

Para a Casa Branca, três metas são prioritárias: reduzir tarifas sobre produtos manufaturados, garantir acesso contínuo a terras raras — indispensáveis às indústrias de defesa e semicondutores — e obter o apoio de Pequim para esfriar o conflito com o Irã, estabilizando preços do barril de petróleo.

3. O que a China pretende assegurar: tecnologia, agricultura e estabilidade externa

Do lado chinês, o objetivo central é prolongar a suspensão de restrições tecnológicas impostas pelos EUA, especialmente no setor de chips avançados. O governo de Xi Jinping sinaliza contrapartidas em três frentes:

  1. Retomada de compras agrícolas, com meta de 25 milhões de toneladas anuais de soja norte-americana;
  2. Ampliação de investimentos diretos em infraestrutura energética nos EUA, a fim de mitigar gargalos logísticos;
  3. Suporte diplomático na crise do Oriente Médio, onde Pequim atua como principal comprador de petróleo iraniano.

Pequim também monitora o dossiê Taiwan. A suspensão, pelo Departamento de Estado, de um pacote de US$ 11 bilhões em armamentos para a ilha sugere disposição de Trump em flexibilizar posições sensíveis, desde que obtenha concessões comerciais equivalentes.

4. Impactos previstos sobre comércio, inflação e cadeias de suprimentos

Analistas do Brookings Institution projetam três cenários principais:

Convergência moderada Redução gradual de tarifas, alívio em cadeias de semicondutores e aceitação de metas de compras agrícolas. Nesse caso, o prêmio de risco nos mercados emergentes tende a cair até 50 pontos-base.
Convergência ampla Acordo estrutural envolvendo energia, minerais e proteção de propriedade intelectual. A inflação global recuaria cerca de 0,3 p.p. em 2026, mas a oposição interna a Trump poderia acusá-lo de concessões excessivas.
Fracasso negocial Reativação do embate tarifário, possível bloqueio chinês à exportação de terras raras e escalada de custos nos setores de tecnologia e defesa.

O peso dos dois países no comércio mundial amplifica qualquer resultado: juntos, eles concentram cerca de 28 % das exportações globais de bens industrializados e dominam a demanda por metais estratégicos como gálio, neodímio e praseodímio.

Conclusão Técnica

O encontro em Pequim coloca em pauta variáveis que determinam preços de combustíveis, chips e alimentos para múltiplos continentes. Caso se confirme um acordo mínimo de extensão da trégua comercial, empresas de aviação, agricultura e semicondutores ganharão visibilidade imediata, enquanto índices de preços ao produtor podem reagir em até 30 dias. Já um impasse levaria à reativação de tarifas bilionárias e à possível utilização de terras raras como instrumento de retaliação, elevando custos industriais entre 5 % e 8 % no horizonte de um ano. Com 40 % do PIB mundial representado na mesa, as decisões tomadas nas próximas 48 horas em Pequim definirão o rumo de cadeias globais de suprimentos, a trajetória da inflação e o equilíbrio geopolítico entre as duas maiores economias do planeta.