LATAM Airlines anunciou o corte de parte da operação doméstica a partir de 08/05/2026, justificando a medida pelo encarecimento do querosene de aviação (QAV) e pela alta do câmbio, fatores que pressionam diretamente a rentabilidade das rotas regionais no Brasil.
Escalada do combustível e impacto financeiro
O preço médio do QAV acumulou valorização próxima de 28 % no primeiro quadrimestre de 2026, segundo dados preliminares da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O insumo representa tradicionalmente entre 30 % e 40 % da estrutura de custos de uma companhia aérea, proporção que se acentua em mercados como o brasileiro, onde parte relevante das despesas é dolarizada. A LATAM informou que a combinação entre alta do petróleo Brent – que ultrapassou US$ 90 por barril – e câmbio médio de R$ 5,30 elevou sensivelmente o custo por assento-quilômetro oferecido (CASK).
Especialistas do setor apontam que cada variação de US$ 1 no barril de petróleo gera acréscimo anual de aproximadamente R$ 40 milhões nas despesas de combustível de grandes operadoras no mercado doméstico. Diante do cenário, companhias frequentemente optam por rever a malha para preservar margens, sobretudo em rotas com menores índices de ocupação.
Ajustes na malha: rotas e frequências afetadas
A reprogramação da LATAM concentra-se em voos regionais de curta e média distância. Entre as rotas impactadas estão ligações entre capitais de porte médio e polos do interior, como Brasília–Imperatriz, Belém–Macapá e Guarulhos–Joinville. A empresa comunicou redução de até 30 % nas frequências semanais nesses mercados, além da suspensão temporária de operações em aeroportos onde a demanda não cobre o custo incremental do combustível.
Em nota, a companhia declarou que “mantém monitoramento contínuo da procura por assentos” e que poderá restabelecer a capacidade “quando houver condições competitivas mais favoráveis”. Grandes hubs, como Guarulhos e Brasília, permanecem com oferta praticamente inalterada, reforçando a estratégia de concentrar voos em aeroportos com maior volume de passageiros e melhor conectividade.
Segundo estimativa interna divulgada ao mercado, o ajuste reduz em aproximadamente 2 % a oferta total doméstica (ASK) da LATAM no segundo semestre, mitigando parte do impacto financeiro sem comprometer a participação da companhia em rotas de alta densidade.
Contexto macroeconômico e pressão cambial
Além do preço do QAV, a valorização do dólar frente ao real ampliou a pressão de custos. Informações do Banco Central do Brasil indicam que a moeda norte-americana avançou 11 % desde janeiro, influenciando itens dolarizados como leasing de aeronaves, manutenção e seguros. Analistas da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR) alertam que, em ambientes de volatilidade cambial, transportadoras com exposição significativa a rotas regionais sofrem duplamente: têm base de receita em real e despesas em dólar.
Imagem: viagens
Embora as empresas tentem repassar parte dos custos ao consumidor final por meio do yield, a elasticidade de demanda em trechos de curta distância limita o repasse integral. Como resultado, ajustes na malha tornam-se ferramenta recorrente para conter perdas.
Repercussões setoriais e cenários futuros
O movimento da LATAM ocorre em momento em que o mercado de aviação doméstica volta a níveis próximos aos pré-pandemia, mas ainda enfrenta margens comprimidas. Bancos de investimento projetam margem operacional média de 3 % para o setor em 2026, inferior aos 7 % registrados globalmente. Caso o preço do petróleo se mantenha elevado, outras companhias podem adotar estratégias semelhantes, priorizando rotas de maior densidade e revisitando planos de expansão.
Medidas estruturais, como políticas de estímulo à produção nacional de QAV sustentável (SAF) e revisão da carga tributária sobre combustíveis, são apontadas por entidades do setor como caminhos para reduzir a exposição às oscilações internacionais. O Ministério de Portos e Aeroportos lançou em abril um grupo de trabalho para avaliar incentivos à adoção de SAF, mas resultados práticos ainda dependem de regulamentação e de investimentos privados.
Conclusão técnica
Os cortes de voos anunciados pela LATAM refletem a correção de rota diante de um ambiente de custos em ascensão e câmbio desfavorável. A companhia preserva hubs estratégicos e ajusta trechos regionais de menor demanda para equilibrar o CASK. Permanecem em monitoramento a trajetória do petróleo Brent, a volatilidade do dólar e a resposta da demanda doméstica a eventuais repasses tarifários. Caso o insumo de combustível estabilize ou recue, há espaço para retomada de parte das frequências suspensas; em cenário contrário, novas reconfigurações de malha no setor não estão descartadas.




